NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS
Rafael gostava por demais
daquela esplanada. Tudo caía ali, a comida no prato, mulheres bonitas que até
tinham abraçado a mesma profissão que ele, mas com uma diferença, ele era
jornalista sem jornal, trabalhava à tarefa.
Rafael conhecia alguns dos
frequentadores do Cai no Prato e isso era bom, porque volta e meia lá caía um
trabalhito que alguém não tinha tempo para fazer. Enquanto os outros saíam
depois do almoço, Rafael prolongava a sua estadia pela tarde dentro. Gostava de
olhar o rio e contemplar a outra margem.
Nesse dia, um dia cheio de
sol, reparou que o indivíduo que estava na mesa da ponta, sem óculos de sol nem
chapéu, também permanecia sentado e estranhamente não lia nenhum jornal nem
tirava fotografias, parecia um ser apático.
Depois de ter relaxado um bom
bocado, Rafael decidiu que já eram horas de ir escrever qualquer coisa para o
seu recente trabalho e levantou-se em direção a casa. Poucos passos ainda o
separavam do Cai no Prato quando o ser apático da esplanada se colocou ao seu
lado e começou a meter conversa.
- Sei que vives com algumas
dificuldades e aqui estou para te ajudar. (Disse o ser estranho).
- Oh amigo! As ajudas não
caem assim do céu sem mais nem para quê! Se me quer vender alguma coisa
desista, não perca o seu tempo, que eu estou falido.
- Chamo-me Gabriel e tenho um
trabalho para te oferecer.
Rafael, abrandou o passo e
olhou para o homem que de repente lhe pareceu um dos professores do curso de
jornalismo. Parou no passeio e com um ar muito incrédulo disse:
- Diz lá Gabriel qual é o trabalho que tens para
mim.
- Não é bem um trabalho é
mais um contrato que quero fazer contigo. Eu dou-te notícias em primeira-mão ou
melhor, digo-te antecipadamente o que vai acontecer, percebes?
- Não, não percebo! Disse
Rafael.
- Digo-te, em primeira-mão,
que amanhã por volta das 15h00 vai cair um pescador no rio junto ao Cai no
Prato.
- Ai sim? Vou esperar para
ver! E já agora diz lá em que é que isso me ajuda?
- Amanhã encontramo-nos no
mesmo sítio. Até amanhã e bons sonhos. (Disse o homem estranho que se chama Gabriel).
Rafael já tinha almoçado. Ia
levantar-se para se ir embora quando de repente se lembrou da conversa da
véspera. Olhou para o relógio e faltavam sete minutos para as três horas da
tarde. A curiosidade fez com que se deixasse ficar mais um pouco. Minutos
depois, sentiu uma mão a pousar no seu ombro direito. Olhou. Era o Gabriel. Tão
depressa olhou como ouviu um grito vindo do rio, socorro! Socorro! Socorro!
O pescador de um dos barcos
de pesca à lampreia tinha acabado de cair.
Rafael ficou atónito e nos
minutos seguintes um enorme medo apoderou-se da sua mente.
Gabriel afastou-se.
Rafael seguiu-o e em silencio
caminharam até ao fim do cais.
- Já te demonstrei os meus
poderes e se queres ser famoso vais publicar no jornal uma notícia em
primeira-mão, disse Gabriel.
- Venha lá essa notícia,
disse Rafael.
- No próximo dia treze,
sexta-feira, vai chover em tudo quanto é sítio e à mesma hora no planeta terra
- Mesmo no deserto? Perguntou
Rafael.
Até em todos os desertos à
face da terra, respondeu Gabriel.
No sábado seguinte ao dia
treze as televisões de todo o mundo noticiavam que tinha chovido em todo o
planeta terra à mesma hora. Não havia memória de tal ter acontecido. O mundo
estava estupefacto e o mais incrível é que o jornal de uma cidade chamada
Caminha, tinha previsto com inigualável exatidão o acontecimento.
Rafael não cabia em si de tão
contente que estava. A próxima notícia que vendesse ao jornal já seria muito
mais cara.
Cada dia que passava, Rafael
estava mais ansioso pela visita de Gabriel. Pensou numa maneira de o encontrar
mas isso era impossível porque ele só aparecia quando queria. Uma coisa era
certa, o local até aqui, era sempre o mesmo, o restaurante Cai no Prato.
Religiosamente Rafael visitava o Cai no Prato todos os dias.
Sete dias depois, Gabriel
apareceu no Cai no Prato a seguir ao almoço. Rafael perguntou-lhe onde é que
ele morava mas Gabriel respondeu que não era de cá, vinha do além e sem mais
explicações disse a Rafael que no primeiro dia do Outono o planeta terra ia ter
um apagão global. Durante um minuto a terra ia ficar sem qualquer tipo de
energia. Tudo o que é movido com energia elétrica vai parar. A hora determinada
para o apagão será ao crepúsculo, hora local.
Na véspera desse dia o jornal
da Cidade de Caminha publicou a notícia.
As repercussões foram
bombásticas. A cidade de Caminha, o jornal e o jornalista já eram conhecidos
mundialmente. O mundo questionava tais acontecimentos estranhos e paranormais.
Já fazia frio e mesmo em dias
de muita chuva Rafael não deixava de ir ao Cai no Prato. No dia sete de
Dezembro Gabriel fez a sua última aparição.
- Rafael, vais dizer ao mundo
que no dia doze de Dezembro de dois mil e doze todo o ser humano que estiver acordado
e a dormir vai ter a sua vida suspensa durante escassos sete segundos.
Rafael não queria acreditar
no que estava a ouvir e tentou fazer mais perguntas a Gabriel mas este saiu do
Cai no Prato e atravessou a rua. Nesse instante passou um autocarro e quando
Rafael correu para o apanhar, já ele tinha desaparecido sem deixar rasto.
A notícia saiu no dia doze. O
jornal esgotou logo pela manhã e o
Portal do jornal da Cidade de
Caminha disponível na Internet bloqueou de tantas visitas.
Não havia como fugir ao
acontecimento. Gabriel não desvendou a hora com receio de gerar um pânico global
mas ele sabia que quem acreditava na profecia não sentiria medo algum.
No dia seguinte a notícia mais
uma vez correu mundo. Todos os jornalistas saíram para a rua para entrevistar
as pessoas. Estavam cheios de curiosidade para ouvirem os relatos sobre a
experiência vivida por cada um.
Será que todos tinham passado
pela mesma experiência?
Todos os seres humanos, mas
todos, estavam mudados, só conseguiam dizer aos jornalistas que pelo que
viveram naqueles segundos não queriam mais guerra à face da terra!
M.
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