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quinta-feira, outubro 28, 2010

Parabéns à SPEA

por esta carta.
Adenda: gostaria de usar o logotipo da SPEA para ilustrar o post, mas estou proibido, pela SPEA, de o fazer
henrique pereira dos santos

terça-feira, agosto 17, 2010

Uma petição pela rola

Imagem retirada daqui
É aqui, para quem estiver de acordo e não tiver problemas em assinar uma petição que se apresenta como sendo de caçadores. Eu, que não sou caçador, assinei.
henrique pereira dos santos

terça-feira, março 23, 2010

Glorificando a caça

A pequena mancha preta ao meio é uma javalina, cujas duas crias estão tapadas pela vegetação e que calmamente se deixa estar tempos infindos por ali, a descoberto, demonstrando o seu conforto nesta aprazível margem de rio
Num comentário a este post disse-se que eu estou sempre a glorificar a caça. Não sendo verdade, eu não quero que o comentário deixe de ser verdadeiro, pelo menos em parte, de maneira que resolvi fazer um post a glorificar a caça para dar razão ao comentador.
A questão decorria de uma série de fotografias, acompanhadas de comentários, em que eu criticava a fúria "encercadoura" que grassa por algumas partes do Alentejo.
Parte dessa fúria de cercar (ou se quisermos, de viver em cercados, porque os donos se colocam do lado de dentro da jaula, numa espécie de jardim zoológico ao contrário) parece-me ser uma reacção ao falhanço do Estado em assegurar o equilíbrio dos diferentes interesses das pessoas.
Na realidade, por razões ideológicas e outras, os donos de terras no Alentejo foram desconsiderados na definição dos equilíbrios de interesses, e o Estado demitiu-se da sua função reguladora, permitindo a invasão de terras por caçadores, motoqueiros, ambientalistas, curiosos, ladrões de gado, todos e quaisquer uns.
Os direitos ancestrais de acesso às propriedades, sobretudo o direito de as cruzar sem pagar portagem, especialmente importante para rebanhos imensos, mas também para trabalhadores, migrantes ou não, caminhando a pé ou em animais, caçadores, almocreves, etc., deixaram de ser usados para as funções e nas condições que os fizeram nascer e passaram a ser usados para abusos variados na forma e feitio, sem que o Estado se tenha preocupado em garantir uma adequada defesa dos direitos de propriedade.
Os proprietários contra-atacaram vedando propriedades, umas vezes porque tinham razões económicas para o fazer, sobretudo a criação de gado ou a caça grossa, outras vezes usando esta justificação para simplesmente retomarem o controlo das suas propriedades.
Mais uma vez o Estado se demitiu da sua função reguladora, mudou de campo, e permitiu toda a espécie de abusos na vedação de propriedades (era sobre esses abusos o post de que este é uma sequela).
O investimento na caça começou a surgir numa altura em que a criação de porcos de montanheira não era ainda possível (como não foi durante décadas, por causa da peste suína africana) e os rendimentos alternativos estavam em queda acentuada em consequência da nossa adesão à Comunidade Europeia.
O resultado é hoje verificável, por exemplo, na propriedade cuja vedação, da forma como foi feita, critiquei no post anterior.
Nos cerca de três mil hectares da propriedade em questão existirão mais de mil comedouros, não sei quantos pontos de água, abrigos com fartura e gestão orientada para a produção de caça, quer miúda, quer graúda. Ver coelhos, lebres, perdizes, javalis não tem qualquer dificuldade, como não terá ver veados.
Para fazer o mesmo (mais uns cercados para deposição de carcaças que custam dez reis de mel coado) a LPN tem um projecto aprovado pelo LIFE, para lince e o abutre negro no montante de 2,6 milhões de euros nos nossos impostos.
Vale a pena discutir o que faz sentido: ir directo aos impostos dos contribuintes para financiar projectos pontuais, limitados no tempo e insustentáveis, ou glorificar a caça que permite fazer o mesmo, de forma consistente e sustentada a prazo?
Dir-se-á que tal como a caça é gerida há grandes problemas ambientais, há demissão do Estado na fiscalização e regulação da actividade e outras coisas que tal.
Inteiramente de acordo.
Eu até acho que mesmo para a caça grossa não há vantagem em tê-la toda cercada, mais ou menos domesticada, sobretudo agora que a actividade se expandiu tanto que muitos fazem gestão de habitat e das populações e portanto, mesmo sem cercados, é possível garantir bons troféus nas propriedades. Mas isto sou eu a falar que não sou gestor da propriedades e posso ter ideias erradas sobre a dimensão do furtivismo, do todo o terreno e de outros problemas mais que as cercas ajudam a controlar.
Mesmo com cercas, não seriam mais bem aplicados os 2,6 milhões a compatibilizar a actividade com a conservação? A garantir cercas permeáveis, a garantir passagens de pessoas, a garantir fiscalização séria do controlo de predadores e por aí fora?
Sim, eu sei, o projecto prevê a parceria com as organizações de caçadores e os proprietários. Mas a eficiência e a sustentabilidade é a mesma partindo da actividade para a conservação ou partindo da conservação para a actividade?
Eu tenho muitas dúvidas.
Agora sim, podem comentar um texto de glorificação da caça.
Da caça enquanto instrumento de sustentabilidade da gestão de populações e habitats, não da caça enquanto actividade em si, matéria que se discute noutro contexto.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

O gosto da biodiversidade (publicidade) IV

A imagem veio daqui
Começa amanhã no CascaisShopping.

"A caça permite a muitos proprietários, tal como faz a ATN por razões de conservação, ter recursos para criar bebedouros para a fauna, fazer sementeiras para aumentar o alimento disponível, manter zonas de refúgio e abrigo, etc., de modo a que espécies como a perdiz e o coelho sejam mais abundantes.
Estas espécies, em especial o coelho, são a base da alimentação de muitas outras, como o gato bravo ou a águia real, presentes nas propriedades que a ATN gere.
A exploração racional da caça, com preocupações de conservação, permite que muitas outras espécies, para além da perdiz e do coelho, beneficiem da gestão do habitat. É o caso de borboletas e outros insectos, cobras, pássaros e morcegos.
A opção é sua:
usar carne de coelhos ou frangos produzidos intensivamente em gaiolas, muitas vezes sem nunca verem a luz do sol, resulta quase sempre em paisagens monótonas de produção intensiva de cereais, usados nas rações que os alimentam;
usar caça, quando gerida com respeito pela biodiversidade, é financiar paisagens com mais diversidade, criando espaços onde as águias, os gatos bravos ou as raposas podem viver sem risco de morrerem à fome.

Pudim de coelho bravo

Ingredientes:
1 coelho com 700 gr
100 gr de chouriço de carne
1 dl de vinho branco
Sal e pimenta a gosto
3 dentes de alho
1 ramo de salsa
5 grãos de pimenta
1 cebola grande
0,5 dl de azeite
50 gr de margarina
3 colheres de sopa de vinho do Porto
Noz-moscada a gosto
100 gr de pão duro levemente torrado
1 dl de leite
5 ovos
Preparação:
Corta-se o coelho depois de bem amanhado, aos bocados. Põe-se na marinada feita com o vinho branco, os dentes de alho picados, o ramo de salsa, a pimenta e o sal. Passadas cerca de 3 horas, leva-se ao lume com a marinada e o chouriço às rodelas. Tapa-se o tacho e ferve devagarinho (adicionando diversas vezes alguma água).
Misturam-se então o vinho do Porto, a pimenta e a noz-moscada. Depois de cozida a carne, desossa-se e passa-se pela máquina, e passa-se igualmente o pão, deita-se o molho da carne, o leite e os ovos previamente batidos. Envolve-se tudo muito bem. Vai a forno brando cozer, em forma de bolo inglês, bem untada com manteiga, durante cerca de meia hora (por cima colocam-se pedacinhos de manteiga). Desenforma-se e serve-se frio, cortado às fatias.
Nota: Feito com lebre, este pudim também fica muito bom.

henrique pereira dos santos, com receita do Chef António Alexandre

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Cinzentos e mulatos


Em muitas discussões, por exemplo, sobre o fogo ou a caça, vejo-me muitas vezes na circunstância de ser acusado de ser um defensor do fogo ou da caça.
É verdade que digo que em certas circunstâncias o fogo ou a caça são benéficos do ponto de vista ambiental. Mas dizer isto é rigorosamente igual a dizer que em certas circunstâncias o fogo ou a caça são prejudiciais do ponto de vista ambiental.
Como em discussões de base ambiental predominam as pessoas que têm posições ambientalistas, como existem muitas posições ambientalistas diferentes, é natural que apareçam pessoas que dizem que o fogo ou a caça são grandes problemas ambientais (e podem ser, em algumas circunstâcias). Nessas alturas tenho tendência para chamar a atenção para as circunstâncias em que não é assim, concluindo que é errada a ideia de que o fogo ou a caça, por si sós, são problemas ambientais de primeira grandeza. E que a discussão fundamental é a das circunstâncias.
É normalmente aqui que a discussão se entorna e me começam a querer colar a argumentações que não são as minhas: as de que o fogo ou a caça nunca são problemas ambientais.
Para quem vê o mundo a preto e branco isto pode fazer sentido. Há gente com uma espécie de daltonismo que os impede de ver os cinzentos.
É o mesmo esquema mental que sempre foi usado em todas as discussões onde se defende a pureza de uma ortodoxia: quem não for assim, é assado, sendo que dentro do assado cabem muitas vezes mais diferenças que entre alguns assins e assados.
Lembro-me de em miúdo pretender apanhar um autocarro e não me ter sido possível porque era um autocarro que não era para brancos. E lembro-me de nessa altura, espantado, ter perguntado ao meu pai como é que viajavam os mulatos num país em que havia uns autocarros para brancos e outros para pretos.
Deve ter sido por essa altura que percebi que para muitos pretos, os mulatos são brancos, e para muitos brancos os mulatos são pretos e que era difícil para os mulatos serem apenas mulatos.
No movimento ambientalista eu sinto-me muitas vezes mulato.
henrique pereira dos santos

domingo, fevereiro 21, 2010

O que é a natureza em nós?


O texto que vou aqui transcrever, e que me chegou via email depois da última controvérsia sobre caça e conservação, não é um texto que eu subscreva.
Mas é um texto que acho interessante.
Tento explicar.
As teses biocêntricas e de igualdade entre as espécies, que fundamentam a oposição à caça, ao consumo de animais e etc., têm origens remotas, com certeza, mas têm uma origem próxima num filósofo utilitarista que as adopta como a consequência de um processo de construção intelectual. São por isso inequivocamente filhas da civilização, no sentido em que apenas a civilização, uma especificidade da nossa espécie (passe o inseguro pleonasmo e a segura aliteração), nos permite repudiar a tendência natural para a defesa do grupo e adoptar a irmandade global.
O que este texto de um caçador permite , com ideias que estão nos antípodas destas, é ver como a comunhão com a natureza e a irmandade com a natureza podem ser vistas exactamente no extremo oposto da ideia de igualdade das espécies.
O acto de caçar é aqui retratado como uma reintegração na natureza, como o cumprimento de um desígnio natural.
Espero que sirva para os que estão de um lado e do outro da barricada se questionarem sobre se não será tempo de voltarmos a ler "Humano, demasiado humano" que Nietzsche pretendia que fosse um livro para espíritos livres, isto é, aqueles que pensam de forma diferente do que se espera deles (li este livro há muitos anos, lembro-me vagamente do que li, e servi-me agora da wikipedia para me certificar de que era realmente sobre sermos humanos, demasiado humanos, que tratava o livro).
henrique pereira dos santos

"Afinal porque caçamos?
É sabido ser a caça a mais antiga actividade do homem e que esteve na génese de tantas outras, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento da humanidade!
Então, porque é que parece ser tão difícil, para alguns, entender que somos herdeiros de algo ancestral, que nos acompanha desde os primeiros tempos?
De aceitar que nos assiste o direito a existirmos e a praticar essa nossa actividade, a herança mais antiga da humanidade, para a qual possuímos natural tendência?
Afinal porque caçamos? E é ou não legítimo fazê-lo?
Na actualidade, nalguns sectores da sociedade (os mais modernos e recentes, de raiz urbana) considera-se que caçar é um comportamento reprovável … em nome de uma falsa e hipócrita defesa de um ambiente que sofre infinitamente mais com as outras múltiplas actividades humanas, derivadas do desenvolvimento e da modernidade, do que com a prática da caça – esta aliás, quem mais contribui para a preservação e entendimento desse mesmo ambiente. Que é vicioso, em nome de discutíveis e exacerbados valores sobre a condição animal, fruto do afastamento da realidade da Natureza e do campo. Consideram-no um desvio, fruto do seu alheamento da vida e da morte, naturais, que não entendem e temem! Que é uma expressão da violência e do mal, segundo princípios anti-armas do pacifismo artificial urbano que todavia desenvolveu a violência psicológica, sofisticada.
Mesmo alguns caçadores têm dúvidas em se assumirem, e até vergonha… tentam que não reparem neles, fazem-no ás escondidas e defendem-se com pouca convicção, sem saber exactamente porque são levados a caçar, como se só por si a vontade e o prazer não chegassem para o justificar e antes fossem algo de pecaminoso!
Eu, caçador contemporâneo, aos 54 anos, sempre que chego a um local ao ar livre, qualquer que seja o espaço... um quintal, um jardim, um campo, praia... olho em volta à procura dos sinais, dos animais e dos lugares onde eles possam estar, as suas possíveis querenças. É instintivo, inconsciente!
Imediatamente avalio vegetação e terreno, procuro pedras ou onde o mar levante. Dou comigo a identificar o posto onde me iria colocar, como entraria no terreno ou aonde iria à procura de presas!
Não olho para um rio ou pedaço de mar, um bosque, montanha ou planície... que não pense imediatamente que animais ali se encontrarão!
Vejo qualquer espaço aberto e me dá vontade de pôr a arma ao ombro, assobiar ao cão e marchar rumo ao horizonte...
Chegando a uma praia, olho imediatamente para o mar a avaliar o seu potencial, o estado de força, a limpidez, altura da maré, manchas de pedra e outros sinais...
Mal avisto um pedaço de oceano, logo me apetece enfiar máscara e barbatanas e ir por ali fora, de arma na mão!
È mais forte do que qualquer outra coisa, e sempre assim foi desde que me lembro!
Ora o que é isto? Só tenho uma explicação:
- SOU CAÇADOR! Em todas as fibras do meu ser... até ao mais ínfimo protão!
Porquê? Pois porque há em mim um qualquer código que me faz ser assim. Como sei que existe noutros, e, sei que existem outros cujo primeiro olhar é para os biquínis, ou para a luz e côr do enquadramento que daria uma tela ou uma fotografia; os que ouvem música no vento e nas ondas, ou os que desenham na mente a casa que ali construiriam... cada qual nasce com a sua sensibilidade e tendências...
Os meus antepassados foram formidáveis caçadores! Se não o tivessem sido não estaríamos aqui a discorrer sobre estas questões! Porque o homem é fraco, corre pouco, não possui asas, tem pele fina e nua, unhas curtas e dentes pequenos… Teria sido comido pelos carnívoros, ou, sobrevivendo de raízes, frutos e plantas, não teria chegado ao nível actual dos nossos detractores nem aos locais onde eles se exprimem. Seria um tímido herbívoro não evoluído, um saguim grande e triste, nu, com frio e miserável, em permanente busca de comida e estado de vigilância. Se “eles”, os modernos e os que se julgam anti-caça, se acham no topo da evolução humana, foi por terem sido criados a carne, e porque os seus antepassados caçaram e comeram carne!
Este antepassado caçador tinha prazer na caça! Tinha que ter… a necessidade de caçar, teve de proporcionar esse prazer, como tudo o que é instintivo e fundamental à sobrevivência das espécies: - O prazer do sexo, da comida, de mitigar a sede, de sentir o calor quando se tem frio ou o fresco quando se tem calor...são indispensáveis à própria vida! Por isso os animais brincam e têm prazer nos jogos onde treinam para a sua sobrevivência: as lutas e emboscadas dos leões, o correr e saltar das gazelas... as acrobacias dos macacos e das aves, as brincadeiras das focas, lontras ou golfinhos.
Fala-se da morte e associa-se esta à caça… tentam que seja um argumento de peso contra ela… mas, a verdade é que há caçadores e presas em todos os estratos da vida! A morte ocorre em todos os seres e faz por isso parte da vida, e de uma relação profunda e natural, que permite a transmissão da matéria e da energia.
Existe uma teia intrincadíssima entre TODOS os seres vivos, que os condiciona. Nós não somos excepção! Basicamente o homem é um animal e igual a eles: nasce, cresce, reproduz-se e morre! Mas, quanto mais sentimentos desenvolveu e mais elevados, mais se distanciou do básico e portanto do animal. Tanto o animal como o homem partilham sensações físicas elementares como a sede, fome, calor, frio e cansaço. Possuem ainda outros sentimentos mais elaborados como o medo, a disposição para o combate, a luxúria e até o amor maternal. Porém, o homem desenvolveu outros sentimentos ainda mais sofisticados, ao nível da psique, que só ele possui, o tornam diferente e elevam a níveis inacessíveis ao animal!
Nós matamos porque somos caçadores! Sem raiva… porque na Natureza, a morte de uns é a vida de outros. Matamos as presas, naturalmente e em paz! Não porque as odiamos, como o leão não odeia zebras nem a aranha odeia moscas! Mas precisam delas para viver e as capturam, naturalmente. Quando damos a morte é por uma razão: A morte de uns dá a vida aos outros, é assim a ordem de toda a Natureza, das plantas aos animais! A grande árvore que morre, apodrece e dá de comer ás novas… e a tantos insectos e estes aos pássaros e até ao urso… Se tiramos uma vida, podemos todavia dar-lhe continuidade porque ao comer o ser que morreu, o incorporamos, e ele continua assim a viver em nós, até por nossa vez morrermos e sermos incorporados na terra e nos vermes e daí passarmos às outras formas de vida, as plantas e os outros animais. Por isso a vida se mantém, é passada de uns seres para os outros. Nós somos meros transportadores de energia, através da vida.
Dar a morte é algo de natural, porque morrer é consequência de estar vivo e o fim dessa mesma vida. Nós damos a vida ao fazer filhos e também damos a morte… é o mesmo e faz parte da nossa condição! O caçador o pratica, com respeito pelos animais a quem dá a morte pois não o faz com o mesmo sentimento do assassino ou a raiva de quem se vinga ou quer suplantar o adversário, e o faz com frieza e eficiência! O objectivo é matar e não fazer sofrer! Mata porque tem de ser, tal como o leopardo mata a gazela, a águia o coelho e o tubarão a foca. Fazemos parte de um todo onde se mata e se morre, como a morte faz parte da vida. E é por isso que sendo caçadores, amamos os animais que matamos e não os odiamos! O pastor, esse odeia o lobo que lhe come o rebanho, o agricultor odeia o javali que lhe come a seara! Podem odiar, e se compreende, mas raramente os matam, e, quando matam alguma coisa é aos seus animais, para os comer, e também não os matam com ódio, matam-nos com indiferença e porque é preciso! Matar com ódio, mata o assassino, por maldade… coisa que nem a cobra ou o crocodilo fazem, porque o criminoso é mau, é baixo! Está no mais baixo nível da existência!
O homem se foi libertando desta teia e saiu dela, por força da sua evolução e do desenvolvimento, arranjando formas dela menos depender. Mas continua a depender da morte, porque come seres que estiveram vivos… animais mortos, e, ao comer as plantas também as mata! A morte estará sempre associada à transferência da energia natural!
O gosto natural pela caça, o “gene do caçador”, existe e está no nosso código genético! Em todas as classes de seres vivos, em todos os estratos e em todas as comunidades, há predadores e presas, que a Natureza na sua complicada rede de interacções e relacionamento criou, de modo a que se regulasse e mantivesse numa dinâmica de evolução e vida. Esse gosto manteve-se ao longo das gerações, como o gosto em procriar ou comer. O homem ao evoluir ganhou outras sensações que são seu apanágio: os gostos e os prazeres sofisticados, apreciar uma paisagem, um vinho, ouvir música, jogar um jogo complexo! Porque só o homem tem o espírito, ou a "alma", que lhe permitiu desenvolver tais sentimentos superiores, como o amor ou a piedade! Isso o que distingue o homem dos animais... que não os sentem. Por exemplo, e desde logo, a piedade, que nenhum animal possui, por força da sua condição como pela sua total inutilidade ou mesmo vantagem de não a manifestar! Pode imaginar-se que o lobo tenha piedade pelo veado? Seria anti-natural! Ou o amor, o amor puro dos amantes ou pelas outras pessoas que conduz a praticar o bem, e, a generosidade! São sentimentos exclusivos do homem, como apreciar as coisas belas e boas, a gastronomia, a música e o canto, a dança ou um simples pôr-do-Sol! Tudo coisas que o homem desenvolveu, inatingíveis para os animais e que os separam. Coisas que diferenciam os próprios homens e os colocam em diferentes níveis da evolução: - Da cupidez do ladrão, do ódio do assassino, da luxúria do tarado - exacerbações extremas de paixões - , ao homem que se eleva pela sua arte, ou pelos sentimentos generosos da partilha ou da ajuda, e finalmente ao Santo, cujo desprendimento é total!
Esse gene do caçador, pode existir ou não, como pode estar activo ou adormecido. Neste caso pode revelar-se tardiamente ou nunca se revelar! Porém em nós, ele está activo e nos impele a caçar, como nos podia ter impelido a ser músicos, militares, cozinheiros! Por isso, para mim, caçar é sentir a satisfação e a liberdade imensa de seguir essa tendência que vive no meu ser! O desapego, o afastar de tudo, onde nada mais conta nem importa senão o ir, o procurar... não importa o quê!
Reprimi-lo seria a atrofia de uma tendência natural, a infelicidade e a frustração.
E, preciso sim de capturar uma presa, de me apossar dela, de a sentir como sendo minha! De experimentar essa sensação da posse, a satisfação atávica, animalesca e ancestral de "apresar". Não se confunda com matar! Nada tem a ver, porque logo depois a minha parte humana, a alma, se enche de pena e se pudesse daria vida àquele animal e o perseguiria outra vez, pois ao caçá-lo criei uma ligação com ele, me identifiquei com ele e passei a depender dele, como num namoro!
Será assim tão difícil de perceber? E de aceitar? Isto faz de mim um ser vicioso e mau? Um sádico criminoso, como pretendem os que não o entendem… talvez porque nunca lhes explicaram as coisas deste modo, presumindo eles de acordo com a sua percepção?
Depois, comê-la-ei... é outra parte dessa condição de ser caçador: sou impelido a comer a minha captura! Os antigos caçadores, os mais primitivos e os filósofos, explicam bem esta parte, pois ao comer o animal, o incorporamos em nós próprios e ele continua a viver, em nós... é algo de profundo que explica a forte ligação da caça à gastronomia, para lá do pragmatismo puro da alimentação e sobrevivência.
A seguir, partilho com os outros esse momento da posse: o lance vivido! Exibo-me e recebo o reconhecimento dos meus iguais, a admiração. É a vaidade humana entendida sob a forma da recompensa, que nos leva a procurar a eficiência para o bem comum: É-se enaltecido mas se contribuiu para o grupo! O que em tempos idos teve a maior importância e por isso se manteve e nos marcou! E não funciona só na caça!
No acto de historiar, há ainda um componente fundamental: A partilha da experiência e do saber adquirido. O ensinar e o imitar, que melhoram a técnica e portanto os resultados do grupo! Ou julgam que é por acaso que somos uma confraria de "mentirosos"? De contadores de histórias e de potenciais vaidosos?
Percebe-se que a prática da caça mantém a nossa ligação à Natureza, e, que nos reintegramos nela ao regressarmos à condição do caçador. O homem, que se afastou da Natureza, regressa assim ao seu estado mais natural ou primitivo, renova energias, limpa as frustrações da vida moderna, reaproximando-se da Natureza e de si mesmo, como os adultos tendem a voltar à infância ou aonde foram felizes! Mais do que isso, imergem na Natureza, onde têm lugar, são aceites porque o caçador faz parte dela e está previsto! A sua actividade é sustentável, como não é a do homem construtor de mega urbes e do desenvolvimento industrial!
Claro que usufruir da Natureza, também outros o fazem! O caminheiro, o fotógrafo e o observador de pássaros, o mergulhador, o ciclista de btt e o alpinista... experimentam esse contacto, mas apenas o contacto e porque não possuindo o gene do caçador, isso lhes basta. Não têm de satisfazer a necessidade de caçar, de se apoderarem de mais do que sensações ou imagens. A necessidade do caçador é ainda mais física! Além do esforço e do jogo da caça, de iludir o animal, importa a sua posse: a captura! A captura é o grande objectivo! Assuma-se e entenda-se, porque sem a captura do animal, o caçador primitivo não sobrevivia… ele não se alimentava de sensações nem de imagens, e sim de carne!
A caça evoluiu, mas não pode ser separada dessa posse, que redunda na morte... a pesca sem morte é a excelência... quando houver a caça sem morte, talvez surja um novo caçador… porém ficará sempre o vazio da posse física, de incorporar o animal, que hoje ainda não dissocio da caça. No futuro… não sei, pois já não será nesta minha vida. Sei sim que a caça evoluiu também, acompanhou o homem... a que se pratica hoje pouco tem a ver com a do início do século passado, menos ainda com a da idade média e nada com a da pré-história… salvo pelo que se manteve, o impulso de caçar e finalidade de apresar! Mas em contrapartida e pela lei das compensações, assumiu uma maior importância quer na ligação à terra e à Natureza quer na sua preservação, pois que graças à caça e pela caça, sobrevivem hoje espécies e se mantém o ambiente e a biodiversidade! Não tenho dúvida de que o caçador em mim passará a outro, como me foi passado e se manifestou em mim, e assim acontece desde o início dos tempos, porque ele é útil! E passará, não só pelas leis da genética mas também por via das ideias que se divulgam e cultivam, outra admirável e exclusiva capacidade humana!
È verdade que o caçador procura um regresso à Natureza? Sim, o operário da cintura industrial das grandes cidades, o urbano dos bairros citadinos, o que vive nas metrópoles, os saudosos do campo e da vida ali, que mantêm vestígios da cultura campesina, e são ainda muitos, hoje talvez até a maioria! Porém e o caçador rural, o aldeão que vive na, com, e da Natureza? Como pensar que vá à caça para se sentir próximo da Natureza? Também isso não basta…
Então afinal porque caçamos?
Bom, eu, caçador actual e ser pensante, cheguei à conclusão que, quando pego na arma e saio para o campo ou para o mar, afinal aquilo que faço é perpetuar o gesto do meu longínquo ancestral, no momento em que empunhou pela primeira vez uma arma e alijando a sua condição de presa, se ergueu em glória de predador!
È isso que eu revivo e celebro desde essa altura!
È o que me foi passado no código genético e que eu passarei a outros, por muito que nos “eduquem”, reprimam ou reprovem.
È isso que nos diferencia do alpinista, do passeante, do observador!
È isso que nos leva a ser o que somos…
Afinal é por isso que caçamos!
Foram os caçadores que deram aos artistas e aos filósofos a oportunidade de o serem... que proporcionaram à humanidade chegar até hoje. Foi a caça que lhes permitiu estarem aqui hoje, os biólogos e políticos, os “bem pensantes” dos direitos animais e do ambiente, os “modernos”, todos os que agora tentam acabar connosco!
Deviam estar-nos gratos, perceber o nosso direito a existirmos pelo simples facto de o sermos e gostarmos de caçar, e não, acabar connosco porque já não lhes fazemos falta, porque perderam a capacidade de nos entender e ignoram este facto ancestral.
Não teremos então já, o direito a existir?
Não pretendo fazer de ninguém caçador, tão pouco impor que seja obrigatório caçar… como o fariam os meus detractores! Procuro apenas divulgar porque sou caçador, e que me respeitem por isso.
Não luto para impor as minhas ideias e sim pela defesa de ter direito a elas!
António Luiz Pacheco

terça-feira, fevereiro 16, 2010

O prazer de matar

O título deste post é um dos argumentos mais usados contra a caça, sendo supostamente uma sólida base ética para eliminar a caça.
Simplesmente trata-se de um argumento que não se pode chamar ad terrorem porque não visa criar medo nos outros, mas não anda longe porque visa impedir a discussão ética numa base racional: a discussão dos sistemas de valores em causa e a sua aplicação a situações concretas.
Na verdade o que é relevante na caça, para muitos dos seus participantes, não é o seu resultado mas o caminho que se percorre (o mesmo se pode dizer da tourada e de muitas outras actividades humanas). Esquecer isto procurando pôr nos outros sistemas de valores que não perfilham não é sério.
Tive um dia destes uma troca de mails com Pedro Melo, o proprietário da única reserva de caça que proíbe a caça a migradoras. Pedro Melo ponderou acabar com essa especificidade porque perde dinheiro com isso e, no caso das migradoras, não vê grande vantagem de conservação porque entende que a maioria vai ser caçada pelos vizinhos do lado.
E nessa troca de mails Pedro Melo refere: "se por exº cada caçador só abatesse uma perdiz por dia e dispendesse o resto do dia a caçá-las utilizando cartuchos sem chumbo: á partida parece um disparate, mas pergunto-me se os caçadores não aceitariam de bom grado caçar mais dias, aproveitar os prazeres da caça que são muitíssimos, dando em troca o sacrifício de trazer para casa uma só peça". Parece-me que está feita a demonstração de que o que motiva a caça, pelo menos para alguns, não é morte dos animais em si, mas toda uma actividade ancestral de relação com o campo. Poderia dar o meu exemplo, que nunca fui caçador nem tenho a menor vocação para caçador, mas houve um ou dois Verões em que andei aos passarinhos com uma pressão de ar e uns primos meus (actividade ilegal, mas evidentemente nunca detectada. Na altura nem sei se sabia que era ilegal, mas é possível que soubesse). Quando se feria um pássaro a regra era matá-lo o mais rapidamente possível para evitar sofrimento, de maneira geral torcendo-lhe o pescoço. Essa era sem dúvida a parte que mais me custava e não tinha nenhum gosto nisso. Os passarinhos fritos não eram maus mas não era isso que me fazia por ali andar. O que verdadeiramente me motivava era ter um motivo para andar pelo monte (noutras alturas ia pastar as vacas de um amigo meu, era também um bom motivo. A actividade era substancialmente diferente, embora me fosse igualmente prazenteira), era procurar, era conseguir, era ser mais esperto, mais silencioso, mais hábil que o pássaro, mas sobretudo ser capaz de fazer coisas que à partida eu diria que não sabia ou não era capaz. Pode-se discutir os sistemas de valores envolvidos nisto, mas nunca a partir da ideia de que todos os que caçam o fazem pelo prazer de matar.
Alexandre Vaz diz: "Ou se acredita que a vida é um valor que deve ser preservado ou não. Ou se acredita que todos os seres vivos se devem subordinar aos interesses dos humanos ou não."
Vejamos as consequências destes da adopção destes dois valores, começando por discutir o primeiro. Depois avaliemos a caça no quadro das actividades humanas, no contexto de um sistema de valores que adoptasse este dois princípios.
A primeira questão é a de saber o que se define como o valor da vida. A discussão ética existe quando se confrontam dois valores e é preciso optar por prescindir ou diminuir um deles. Por exemplo, no caso da praga de ratos que refere Alexandre Vaz, o que está em causa não é apenas a discussão do valor da vida de cada rato, mas o facto da expansão incontrolada de ratos implicar perda de muitas outras vidas (sentientes e não sentientes). É portanto mais que duvidoso que o valor da vida esteja incluído no valor absoluto da vida de cada indivíduo (por isso é eticamente razoável matar em legítima defesa).
O que tenho vindo a dizer é que a caça pode ser um instrumento de conservação de muitos indivíduos que beneficiam das acções de gestão de habitat sem que sejam caçados, o que inclui muitos indivíduos de espécies não cinegéticas, borboletas, por exemplo, e muitos indivíduos das espécies cinegéticas que passam a ter mais alimento e condições de reprodução e que nunca chegam a ser caçados por homens (muitos são caçados por outras espécies, é aliás esse o objectivo das acções de conservação que visam aumentar a disponibilidade alimentar dos predadores de topo).
A ideia de que preservar o valor da vida é preservar a vida de cada indivíduo é uma ideia perversa, fortemente prejudicial para a conservação da vida, entendida não apenas como a vida de cada indivíduo mas também como o processo que permite a reprodução dos sistemas naturais.
Quanto à questão do antropocentrismo, o segundo valor de que fala o Alexandre, sim, eu e a grande maioria das pessoas deste mundo somos antropocêntricos, não percebendo por que razão a pequena minoria que pretende ter um quadro de valores diferente acha que tem o direito de o impôr à esmagadora maioria das outras pessoas.
Mas ainda que se parta de uma visão biocêntrica, a caça é das menores preocupações éticas de quem parte de um sistema de valores que postula a igualdade entre as espécies. Partindo do pressuposto de que todas as espécies estão num plano de igualdade, o primeiro problema não é o da caça de indivíduos que viveram sempre livres e sem contacto com o homem (e que tanto podem ser mortos por uma pessoa, como por outro predador qualquer) mas sim o problema da posse de indivíduos (por isso o problema da escravatura é um problema ético de primeiríssima grandeza, inaceitável em qualquer circunstância, ao contrário do problema da morte de terceiros que aceitamos em dezenas de situações, incluindo na guerra). O que significaria que partir de um sistema de valores biocêntricos deveria levar quem adopta estes valores a ser ferozmente anti-posse de animais. Sobretudo dos que são tratados sem qualquer respeito por aquilo que seria o seu comportamento natural, quer sejam postos em gaiolas para produzir ovos e leite, quer estejam nas nossas casas para que lhes façamos festinhas e nos compensem as carências afectivas, e não anti-actividades que respeitam a essência e a liberdade dos indivíduos, mesmo que no final os tratem violentamente (como na caça e na tourada).
Por alguma razão Jane Goodall (em cima, na fotografia), absolutamente insuspeita deste ponto de vista, afirmou que lhe parecia bem menos aceitável ter animais domésticos em casa que ter touradas (mesmo que ela seja, como penso que é, contra as touradas).
A ética é uma coisa bem mais complicada que frases soltas de belo efeito. E por isso os argumentos éticos sobre a caça têm de ser um bom bocado mais sólidos que os que por aqui têm aparecido.
henrique pereira dos santos