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segunda-feira, maio 02, 2011

O Atlas dos morcegos e a participação dos comuns

O Paulo Barros deu aqui uma boa notícia sobre o processo para a produção de um atlas de morcegos.


A leitura dos comentários associados a esse post é para mim tão surpreendente que resolvi fazer eu também um post sobre a questão específica da participação dos comuns em projectos de atlas.

Um pouco de enquadramento.

Há já uns anos (14, 15), quando tive responsabilidades na presidência do ICNB, acompanhei de perto o lançamento de alguns atlas. Alguns concretizaram-se, outros não, todos com muitos atrasos.

Nessa altura participei activamente nas reuniões de técnicos ligados ao assunto, não por ser técnico ligado ao assunto, mas por ter responsabilidades de decisão e a presidência de então considerar os processos de sistematização e disponibilização pública de informação sobre biodiversidade uma das questões essenciais da política de conservação da natureza e uma responsabilidade indiscutível do ICNB.

Desde muito cedo a então presidência do ICNB deixou claro o princípio de que os atlas (e genericamente a produção, sistematização e disponibilização ao público de informação sobre biodiversidade) era demasiado importante para ser deixada aos técnicos de biodiversidade.

Isto que hoje é uma banalidade foi na altura um corte fracturante (como agora se diz) com a prática do ICNB, que se materializou na lógica inicial dos atlas, independentemente de terem depois evoluído noutros sentidos, menos o atlas das aves, mais o atlas dos répteis e anfíbios, infelizmente ainda muito amarrado a uma concepção tecnocrática de produção de informação de biodiversidade. E materializou-se em vários outros processos, como o impulso no desenvolvimento do SIPNAT ou a obrigação que foi imposta, contrariada pelos técnicos, pelo menos quanto ao timing, da discussão pública sobre a delimitação da rede natura (considerado um processso exclusivamente técnico nos seis ou sete anos anteriores, razão pela qual ninguém conhecia as propostas então levadas a discussão pública).

Mais tarde, já sem essas responsabilidades, mas com responsabilidades mais operacionais na avaliação de impacte ambiental, apercebi-me (na realidade já tinha essa percepção, mas não com a dimensão da evidência que me entrava pelos olhos dentro) da quantidade de informação sobre biodiversidade que o país produzia e desperdiçava em arquivos, físicos ou virtuais, a que poucos ou nenhuns tinham acesso.

Tentei, como já em vários posts expliquei, encontrar dentro do ICNB mecanismos de cooperação com terceiros que garantissem um sistema de recolha e disponibilização dessa informação. Nunca o consegui (erros meus, má fortuna...). A BIO3 chegou a lançar uma plataforma que foi de facto asfixiada pelo recuo do ICNB na partilha de dados, com o argumento (agora repetido) que dentro de seis meses (penso que sito terá sido há três anos) teria operacional uma nova versão do SIPNAT que tornaria redundante a tal base de dados da BIO3.

Quando saí do ICNB continuei a trabalhar numa solução que permitisse servir de plataforma para esse objectivo de recolha e disponibilização de informação que é todos os dias produzida pelo país em matéria de biodiversidade.

Nesse contexto, um dia o Henrique Miguel Pereira disse-me para ir falar com as pessoas do Biodiversity4all que eu não conhecia de lado nenhum. Tivemos uma conversa simpática num café qualquer e eu abandonei imediatamente as minhas propostas para passar a apoiar as propostas, bem mais adiantadas e estruturadas que as minhas (pelo menos em alguns aspectos, há outros em que acho que as soluções em que vinha a trabalhar estavam mais adiantadas, mas isso é um pormenor).

O apoio que dou ao biodiversity4all é um apoio externo, isto é, não estou envolvido no núcleo duro do projecto, faço propostas e perguntam-me opiniões, mas verdadeiramente quem trabalha no projecto e o mantém a andar são essas pessoas.

Esse apoio tem essencialmente duas componentes: alguma discussão sobre orientações estratégicas e procura de meios de sustentabilidade económica do projecto (sim, o trabalho das pessoas é voluntário mas o seu desenvolvimento pode implicar despesas); procura de dados, que todos fazemos, de forma a alimentar a plataforma com informação.

O site tem bastantes coisas de que não gosto.

Criado a partir de uma plataforma holandesa (se não me engano) é a cara portuguesa de uma plataforma europeia (http://www.observado.org/) que é essencialmente uma plataforma de observações, pressupondo observadores com alguma experiência. Tem por isso uma orientação muito marcada para o registo e é muito pouco intuitiva para as pessoas, como eu, que mais que observadores são utilizadores de informação. Por exemplo, obter o mapa de distribuição de uma espécie obriga a um caminho longo e muito pouco intuitivo. E há muitos exemplos destes.

Mas tem três coisas de que gosto muito: 1 - existe;2 - é muito democrática; 3 - tem uma plasticidade que lhe permite adaptar-se às situações novas. Por exemplo, estão a ocorrrer os primeiros resultados de uma inovação pedida por uma entidade apoiante: o registo de habitats e não apenas o registo de espécies.

Dentro deste meu trabalho de procura de fontes de informação, tenho tentado (com poucos resultados, por agora) mobilizar detentores de grandes quantidades de registos a ligar-se ao biodiversity4all. A questão não é transferir informação de uns sítios para outros, isso pode fazer-se, bem entendido, a questão é mesmo partilhar informação entre diferentes bases de dados de modo a facilitar o registo (registar num sítio ser suficiente para estar em diferentes plataformas) e a permitir o acesso mais próximo possível dos interesses dos seus utilizadores.

Como toda a gente envolvida no processo faz este trabalho de formiguinha, procurando carrear informação, o site tem neste momento quase 60 mil registos, tendo nas duas últimas semanas dado um salto grande por incorporação automática de 15 mil registos que existiam (obrigado Daniel Sobral, porque convém dar nomes à generosidade) e que foram transferidos automaticamente, ficando disponíveis para todos nós quase instantaneamente.

A quantidade de gente que tem registos em bases de dados e folhas excel deve ser incrível, a quantidade de registos que existem, uns em plataformas mais públicas mas pouco acessiveis aos não iniciados, outros nos seus computadores deve ser assombrosa e portanto haverá com certeza, ao longo do tempo, boas surpresas destas.

O biodiversity4all nasce aliás do facto de alguns dos participantes na carta piscícola nacional terem achado um desperdício não encontrar maneira para tornar permanentemente acessíveis os dados que recolheram para essa tarefa específica.

Já hoje, se os diversos participantes nas reuniões dos atlas dos morcegos estivessem disponiveis para ceder os dados de observações que sem dúvida detêm em bases de dados e folhas excel, em meia dúzia de dias (literalmente em meia dúzia de dias) era possível ter um primeiro esboço de um atlas com algum significado. Não como atlas, que seria muito incompleto e desequilibrado, mas como base de programação do atlas, tal como se pretende que ele venha a ser e como base de mobilização de terceiros eventuais produtores de informação útil. Sem qualquer custo.

Este é o contexto do meu pequeno comentário estranhando mais um novo projecto que vai criar uma nova base de registo e disponibilização de dados fechada à comunicação com outras bases (já nem discuto o facto dessa base de dados não ser necessária, existem coisas já feitas que servem, e ser portanto um desperdício de recursos inventar outra vez a roda).

Curioso é o desenvolvimento da discussão que este comentário motivou.

Seria perfeitamente razoável que me respondessem "fizemos esta opção por estas razões".

Mas não. Deram-me respostas polidas (agradeço aliás a disponibilidade da Ana Rainho, coordenadora do processo, para ter vindo aqui comentar, além das outras pessoas envolvidas, claro) que remetiam para coisas genéricas que não respondiam a nada de concreto face ao comentário que fiz.

Por esta razão fiz notar que se se pretende que as pessoas participem voluntariamente no que quer que seja, a confiança e transparência são os activos essenciais a construir e preservar. E acrescentei, para evitar más interpretações, que estava a discutir um pormenor dentro de um projecto que é muito mais importante que esse pormenor.

E a partir daí a reacção afunila na distinção entre os especialistas, os que participam e por aí fora (que já discutiram tudo e decidiram tudo, presumivelmente bem, até porque são especialistas) e os outros que, se quiserem, contactem a coordenação do projecto (a típica inversão tecnocrática que postula que os interessados se devem dirigir a quem orienta os processos de decisão antónima do postulado democrático de que são os dirigentes que devem dirigir-se aos comuns). E depois uma pequena derivação sobre os que criticam em vez de fazer e que minam o processo, o que não passa de um exagero da argumentação tecnocrática, em que os que manifestam opiniões fora do guião oficial devem ser proscritos por não cumprirem as regras que garantem o bem comum.

Esta reacção é muito comum nas lógicas tecnocráticas predominantes nos domínios de especial complexidade técnica.

É o caso da gestão da biodiversidade mas também da energia nuclear, só para citar dois extremos opostos de políticas necessariamente públicas que os técnicos acham sempre ter fundamentos demasiado complexos para serem decididas pelas pessoas comuns.

E são estas reacções que combato sempre.

Porque levanto suspeições sobre o atlas dos morcegos? Porque acho a Ana Rainho (uso-a como exemplo por ser a coordenadora do atlas) menos estimável e sem capacidade para ser a coordenadora do Atlas? Porque quero ser eu a determinar o que o atlas deveria ser e como o processo deveria ser gerido? Não, não, não a todas as perguntas e as vezes que for necessário. Aliás, dificilmente se arranjaria coordenadora melhor que a Ana Rainho, talvez com a excepção da Ana Rainho menos influenciada pela excessivamente ideológica faculdade de ciências de Lisboa.

Se comento e discuto o processo é apenas porque acho normais e intuitivas estas reacções dos técnicos face ao risco de erro que existe em modelos de produção de informação menos controlados e porque estas reacções têm efeitos muito negativos na mobilização das pessoas (que é sempre difícil e condicionada por pequenas coisas aparentemente sem importância).

Abrir processos de construção de atlas (ou outros processos de aquisição de dados de biodiversidade que exijam milhares de olhos em milhares de hectares, e não necessariamente os melhores olhos em áreas limitadas de observação) implica ser capaz de resistir à tentação do rigor excessivo na base, transferindo o rigor para os procedimentos (Francisco Amorim dá um bom exemplo a propósito dos ultra-sons) e para o controlo de qualidade dos resultados.

Implica ser capaz de resistir à desconfiança na capacidade dos outros produzirem informação útil, e o que interessa é a informação útil, não necessariamente a informação rigorosa (sendo rigorosa é necessariamente útil, mas a inversa não é verdadeira).

E implica um esforço sério de ir à procura de quem pode ser útil ao processo, resistindo ao conforto de fechar o processo no grupo de pessoas em quem já se tem confiança.

Discutir se o biodiversity4all é a plataforma a usar ou não no processo é um pormenor lateral.

Mas discutir a atitude geral de abertura ou retracção "aos comuns", muitas vezes claramente ignorantes, é certo, mas ainda assim podendo ser úteis, já não é uma questão lateral.

henrique pereira dos santos

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Rutger Barendse et alii

Há algum tempo que não ia ver quem eram os observadores com mais espécies observadas no biodiversity4all.
Hoje fiquei surpreendido ao verificar que embora Francisco Barros continue a ser o observador com mais espécies observadas, havia, muito próximo, um segundo observador de que nunca me tinha apercebido: Rutger Barendse.
Curioso fui verificar que observações eram essas.
São cerca de três dias no Algarve, a meio de Março de 1999, e cerca de quinze dias na Madeira na segunda quinzena de Abril e princípio de Maio, onde são feitas a grande maioria das quase mil observações registadas por Rutger Barendse e com certeza nas últimas semanas vertidas para a base de dados holandesa a que está associado o Biodiversity4all.
Curiosamente dois factos completamente independentes chamaram-me a atenção para a produção de conhecimento em biodiversidade feito por estrangeiros em Portugal e que com frequência passam mais despercebidos do que eventualmente deveriam (vou tendo idade suficiente, e contactos transversais suficientes, para ir conhecendo o meio da conservação, embora não profundamente, e alguns destes nomes parecerem-me pouco frequentes nas discussões sobre fontes de informação de biodiversidade em Portugal).
O primeiro facto, no sábado dia 11, nas jornadas da ATN, em Figueira de Castelo Rodrigo. Uma das apresentações, sobre flora, com dezenas de observações de Horst Engels, da associação trilhos d'esplendor (curiosa associação cujos membros da direcção, da assembleia geral e do conselho fiscal são os mesmos, pelo que Horst Engels é simultaneamente o presidente da direcção, da assembleia geral e do conselho fiscal) cujo trabalho eu desconhecia por completo e sobre o qual não tenho a menor informação de solidez ou não. Mas o facto é que existe trabalho, não apenas de dois meses na Faia Brava, o que linkei acima, mas de muito mais tempo na zona de Quiaios (as observações não estão no biodiversity4all).
O segundo facto já este fim de semana: o acesso a mais um artigo de George Estabrook, para cujo trabalho Carlos Aguiar me chamou a atenção, e como os artigos que eu já conhecia, muito, muito interessante. George Estabrook está a preparar a publicação dos seus oito trabalhos sobre agricultura tradicional e vida rural portuguesa para a Arizona University Press e espero que o livro não demore muito a ser publicado. Curiosamente nos agradecimentos deste artigo, Estabrook agradece o apoio de Horst Engles (a grafia não é a mesma, mas suponho que seja a mesma pessoa).
Claro que tal como os portugueses haverá nestas observações, mais ou menos em férias, e nestes trabalhos, uns mais, outros menos estruturadamente científicos, coisas boas e coisas más, gente que presta e gente que não presta e por aí fora.
Mas o que eu queria era dizer que de repente, de dois pequenos períodos de férias de um holandês curioso e com cultura de registo de observações, saltam quase mil observações, a grande maioria para a Madeira. E que sem as plataformas sociais que hoje conhecemos seriam provalvemente observações que nunca veriam a luz do dia em Portugal.
Nada de relevante está nessas observações?
Talvez, mas quantas mais, de gente que por aí passa, em férias ou não, poderiam estar a ser integradas, nenhuma delas particularmente relevante, mas que no conjunto nos permitiriam conhecer melhor a nossa biodiversidade?
Espero que aos poucos, a resistência de académicos e especialistas a estes modelos caóticos de registo da informação, organizados em bases não caóticas, vá esmorecendo e seja dada a devida importância, nem mais (são sempre, e só, dados ad hoc), nem menos (muitos dados ad hoc formam padrões estatísticos provavelmente fiáveis), a este tipo de procedimentos novos (em Portugal) de produzir ciência em domínios para os quais a quantidade de informação é uma condição (não suficiente, é certo) da sua qualidade.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, outubro 29, 2010

Da realidade e da autoridade

Esta fotografia foi tirada por mim há oito dias numa propriedade da Altri, uma das duas celuloses que existem em Portugal. Gostaria de fazer notar que a notável galeria ripícola que se vê à direita se prolonga por cerca de oito quilómetros, gerida pela Altri com objectivos de conservação. Na baixa que se vê à esquerda foram retirados os eucaliptos da primeira florestação (penso que nos anos 80), tendo sido plantados freixos (eu tenderia a preferir a evolução natural). Nesta propriedade a entrega destas baixas, tradicionalmente agricultadas, à conservação é uma opção sistemática que permitirá que a mata ripícola ocupe de novo as baixas aluvionares que lhes pertenciam há séculos atrás (situação raríssima no Portugal actual). Em cima à esquerda reconhece-se o caminho que separa a área de conservação da área de produção intensiva de eucalipto. Esta baixa tinha (e ainda tem) uma forte infestação de exóticas invasoras (a mancha mais clara que encosta à galeria ripícola é bambu, por exemplo) que está a ser controlada pela gestão. Voltarei a fotografias desta visita um dia destes. Declaração de interesses: colaboro profissionalmente com a Altri

Jorge Paiva é um botânico conhecido e reconhecido, com uma longa história de activismo ambiental, a quem o movimento ambientalista deve estar reconhecido.
Apesar disso, ou melhor, especialmente por isso, não quero deixar passar em branco algumas afirmações feitas no contexto de uma série de artigos sobre biodiversidade patrocinados pelo BES, publicados às quintas feiras no Público.
Uma derivação para a curiosa forma como surgem esses artigos, em que textos claramente da responsabilidade do jornal intercalam com textos claramente da responsabilidade do BES.
O texto que quero comentar é claramente da responsabilidade do jornal, e especificamente do jornalista Nicolau Ferreira, que não conheço e cuja fidelidade ao que é dito não sei avaliar.
Mas conheço Jorge Paiva, cruzamo-nos aliás com frequência no comboio das seis da manhã, e reconheço no que li algumas constantes do seu discurso público sobre as matas em Portugal: uma glorificação constante de um mítico passado de gestão das matas no tempo dos serviços florestais; uma amargura constante face a um futuro que é sempre negro; uma caracterização do presente que é sempre mais negra que a realidade. E uma profunda desatenção ao que é feito em concreto na gestão das matas de produção e às alterações sócio-económicas que estão a transformar a natureza dos problemas de conservação em Portugal.
Ficam por isso algumas notas ao artigo em causa, porque continuo convencido de que é preciso combater o excesso de catastrofismo no discurso ambientalista dominante.
"Eu não digo isto aos miúdos, mas para mim a floresta portuguesa não tem salvação".
Não preciso de conhecer o jornalista para saber que esta frase traduz fielmente Jorge Paiva. Com dezenas de variações ouvi-a constantemente em todas as intervenções públicas que tem feito.
Mas é uma frase cuja fundamentação é muitíssimo frágil, sendo em alguns aspectos assente em pressupostos errados, revelando uma falta de rigor que sempre me intrigou no discurso de Jorge Paiva, por não bater certo com sua reconhecida carreira académica.
""Ficaram mais castanheiros, porque o carvalho foi mais cortado", esclarece o botânico. Para ver carvalhais é preciso ir à serra do Gerês ou à de Montezinho. "O nosso país não tinha pedra à mostra (como as serras despidas). Quando a floresta é incendiada ou derrubada, todo o solo vai embora."".
Este parágrafo é extraordinário como ilustração da falta de rigor do discurso catastrofista. Jorge Paiva e o jornalista estão na Margaraça, sempre tratada como um paraíso florestal selvagem em todo o artigo, mas que ardeu várias vezes nos últimos anos, sendo o mais extenso e violento incêndio em 1987, numa demonstração evidente de que a afirmação feita sobre os efeitos do fogo não tem correspondência na realidade (o artigo aliás fala também na Arrábida, outro exemplo documentado de recuperação total após fogo).
Mas se as ideias sobre os efeitos do fogo em matas maduras são mais controversas, o que seguramente não faz o menor sentido é dizer que quem quer ver carvalhais tem de ir ao Gerês e a Montezinho (dou aqui de barato a imprecisão geográfica de se considerar como incluída na expressão "Montezinho", também a Nogueira e outras áreas próximas de Montezinho, visto que a não ser assim a frase seria de uma ignorância que evidentemente Jorge Paiva não tem).
Hoje o carvalhal recupera inegavelmente em todo o país. E se até há pouco tempo essa recuperação era menos visível a escalas mais abrangentes, hoje é o recente inventário florestal que a reconhece à escala do país.
Por último, a ideia de que o país não tinha pedra à mostra é uma ideia que carece que ser contextualizada no tempo. É que para sustentar a ideia de que floresta em Portugal não tem futuro era preciso que esta ideia fosse verdadeira nas décadas anteriores, digamos, nos dois séculos anteriores. Sem a contextualização temporal que remete a ideia de que o país não tinha pedra à mostra para largas centenas de anos atrás, a ideia é pura e simplesmente uma mistificação.
Simplesmente não é verdade para os últimos dois séculos, sendo hoje o grau de cobertura do solo incomparavelmente maior que há 50/ 100 anos atrás.
"Porque é que não acredita que vamos conseguir manter isto? "Há alguma preocupação, mas não vejo meios eficazes, em Portugal muito menos. Criamos reservas, mas estão cada vez mais deterioradas, com menos pessoal, mais incêndios e muita pressão imobiliária."".
Aqui está a explicação. A ideia de que a conservação é uma questão de reservas e recursos alocados pelo Estado. A ideia de avaliar a conservação em função do esforço do Estado em retirar ao processo produtivo pedaços do território, em detrimento de uma compreensão dos mecanismos económicos que produzem riqueza e biodiversidade, é a génese do pessimismo de Jorge Paiva, que o leva inclusivamente a perder o rigor de análise que procurei demonstrar acima, quando esquece os processos de evolução das paisagens (com destaque para uma incompreensível diabilização do fogo que qualquer das avaliações científicas feitas até hoje por equipas de botânicos não suporta).
Uma ideia comum.
Mas errada.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, maio 07, 2010

Crítica

"O seu raciocínio está construído com base em erros de análise e especulações e é com base nisso que resolve atacar o trabalho de outros profissionais."
É uma frase de um comentário a um post mas é uma ideia que ouvi vezes sem conta. Lembro-me de algumas dessas vezes, por exemplo com base nos meus comentários antigos sobre mortalidade de indivíduos e afectação de espécies.
Trabalhei muito tempo com avaliação de impacte ambiental e assumi a responsabilidade de impôr muitas obrigações a promotores, quer para que houvesse informação para avaliar a afectação, quer para que se monitorizassem os efeitos concretos dos projectos para se avaliar se estavam ou não a afectar os valores em causa.
Em muitos casos essas imposições, que eram pesadas e caras, diziam directamente respeito à avaliação de mortalidades porque a avaliação de mortalidades não é inútil e é importante em alguns casos.
Acontece que verifiquei, muitas e muitas vezes, que a avaliação de mortalidades era confundida com avaliação de impactos sobre as espécies.
Um dia, exactamente em Évora, num seminário sobre estruturas lineares e biodiversidade, um colega meu do ICNB apresentou os resultados da avaliação de mortalidades em abetardas provocada por uma linha eléctrica. Para meu espanto, durante toda a sua comunicação, nem uma única vez referiu o facto da população de abetardas ter aumentado cerca de 50% desde a instalação da linha eléctrica. No período de debate fiz notar que o paralelismo que tinha sido feito na comunicação entre mortalidade e afectação carecia de ser mais bem demonstrado porque exactamente a população de abetardas tinha aumentado significativamente desde que aquele novo factor de mortalidade existia. Foi-me repondido que esse aumento se devia a outras razões, que era possível que não fosse um aumento real mas uma concentração de indivíduos que estavam a diminuir noutras áreas e outras coisas do género (notei, mas não comentei, que em grande parte das discussões sobre afectação de abetardas por projectos não se aceitavam medidas de minimização que implicassem a criação de condições semelhantes noutros locais dada a fortíssima filopatria das abetardas, que aparentemente já não era tida em conta nas explicações lógicas para a concomitância entre um novo factor de mortalidade e o aumento de populações).
Não fiquei convencido porque já tinha lido muitas coisas sobre mortalidades, referentes a outras espécies, em que cada mortalidade detectada era apresentada como um novo e determinante factor de extinção das espécies (com gráficos de longo prazo sobre o efeito deletério dessa pequena mortalidade) mas a realidade da dinâmica das populações apontava noutro sentido.
Em qualquer caso o meu colega do ICN veio ter comigo mais tarde a recriminar o meu comentário, não porque ele estivesse errado, mas por, no entender do meu colega, ser uma inaceitável quebra de lealdade institucional. Expliquei pacientemente que essa lógica era profundamente prejudicial às instituições porque as obrigava a silenciar os seus erros e não os corrigir e, para além disso, permitia que pessoas com agendas pessoais instrumentalizassem as instituições contando com a falta de crítica de terceiros amarrados a uma definição de lealdade institucional que implica ausência de crítica (para quem tiver dúvidas sobre isso, estude o leninismo e o centralismo democrático).
Agora de novo, pelo simples facto de eu discordar do uso da mortalidade de indivíduos como sinónimo de afectação de espécies sou de novo acusado de "atacar o trabalho de outros profissionais".
A acusação é um espelho de uma sociedade avessa ao debate e prisioneira de solidariedades pessoais e institucionais que se sobrepõem à procura da verdade e das melhores soluções.
Não contem comigo para esse peditório.
Na minha ética, criticar de forma directa, clara, sem ataques pessoais e assinando por baixo é apoiar o trabalho de outros profissionais.
Por alguma razão as empresas mais eficientes são as que mais se preocupam com as queixas e reclamações. Ou seja, aquelas para quem a crítica, mesmo que errada, mesmo que injusta, é a forma mais barata e eficiente de os ajudar a fazer melhor.
henrique pereira dos santos

terça-feira, abril 27, 2010

Serviço público

Da lista de discussão surge o pedido de colaboração num projecto de investigação.
"Está a decorrer um projecto de investigação na Universidade Nova de Lisboa que visa investigar a comunicação de mensagens ambientais via video - videoart. Se quiser participar siga o link http://www.dcea.fct.unl.pt/cense/projects/standby/ . veja o video (2 min) e depois responda ao inquérito (2 min). Obrigada"
Sofia Vaz
O video é este:

domingo, março 28, 2010

Paroquialismo e cientifismo

Eu sei que já usei esta imagem, mas a questão é mesmo esta

A discussão na caixa de comentários deste post vai interessante. Talvez eu tenha reagido excessivamente a alguns comentários mas tenho razões históricas para isso: as várias vezes que tentei, a partir do ICNB, construir um sistema de registo de dados de biodiversidade aberto e acessível (nos dois sentidos, isto é, na consulta, mas também no registo de dados) a qualquer pessoa falharam sempre por paroquialismo, cientifismo ou as duas.
O paroquialismo caracteriza-se pela ideia de que os meus dados, ou o meu sistema, dispensam os outros porque são muito melhores (não vou discutir o que significa melhores). Na discussão do post esta questão surge a partir dos comentários positivos do Henk no sentido de se criarem redes de partilhas de dados em vez de multiplicar bases que não comunicam. Não podia estar mais de acordo, veremos como se comportam os possuidores de dados.
Devo dizer que espero que o meu contributo para a base do biodiversity4all seja exactamente neste campo, a partir de informação pública que existe mas está pouco acessível.
O cientifismo, muito mais complexo de combater e muito mais corrosivo nos seus efeitos, caracteriza-se pela hipervalorização da informação produzida no sistema científico formal (ou pelo menos com as suas regras) e a desvalorização da informação produzida pelas pessoas comuns.
A questão que é sempre levantada é a do espantalho dos erros da informação que podem existir na informação não validada. Por exemplo, o Henk fala de uma observação altamente improvável de corvo.
A base biodiversity4all responde a isto de várias maneiras. É possível saber o autor da observação, é possível contactar e discutir a observação. É portanto possível aferir o grau de confiança da observação. Mas mais que isto, se à medida que as observações se acumulam mais ninguém confirmar essa observação estranha, naturalmente ela perde a confiança dos utilizadores.
Repare-se que nas observações produzidas pelo sistema científico isto é resolvido exactamente da mesma maneira e mais uma: confiando no observador. Se a confiança acrescida é técnica, na certeza da identificação, faz sentido supor que quanto mais especializado o observador mais confiança merece a observação.
Mas deixem-me contar uma história (garanto, não é única):
Num processo de AIA o ICNB estava a ser fortemente pressionado para aprovar um determinado projecto. Numa reunião muito tensa, outros sectores do Estado insurgem-se contra o facto do ICNB referir um habitat prioritário na área porque tinham um parecer de um professor universitário especialista em botânica e habitats de cinco páginas (que mostraram) dizendo taxativamente que o tal habitat não tinha sido encontrado na área. Como é habitual em mim (mas raro na administração pública portuguesa e nos centros de investigação) disse que não havia problema nenhum: o Sr. Professor (Carlos Pinto Gomes) que viesse connosco, o promotor que levasse quem quisesse e o ICNB teria todo o gosto em ir ao terreno verificar quem tinha razão (como é evidente com espécies da fauna este tipo de verificação é bastante mais complexo). Marcada a visita ao terreno lá se encontra o dito habitat, tendo o Sr. Professor explicado que quando esteve no terreno o tinham levado por outro caminho que não aquele que conduzia à área que continha o habitat.
Sei por isso de ciência certa que se a qualidade técnica das pessoas pode ser aferida e relacionada com a qualificação académica, a qualidade da informação que prestam não pode (por muitas razões. Por exemplo, no caso do lince da Malcata que terá ou não morrido da anestesia, tenho ideia de ter lido trabalhos publicados sobre o assunto que omitem a segunda anestesia dada o bicho, numa boa demonstração de que como é errada a ideia de que a informação científica ou produzida por cientistas é inerentemente correcta).
Por isso os modelos de produção de informação científica devem ser abertos e escrutináveis.
As bases de dados das pessoas comuns devem integrar tanto quanto possível o know how e a boa vontade da academia (que existe na maioria dos casos) mas devem ser claramente autónomas, o que implica aceitar o aumento o risco de produzir informação com erros. Aceitar esse risco não significa diminuir o esforço para reduzir a produção de informação errada, aceitar esse risco significa aceitar que para ter um volume de informação mais robusto é inevitável que venham associados erros.
Só isso permite a estas bases independentes ficar o mais livres possíveis de paroquialismos e cientifismos que, em Portugal, têm conduzido à fraquíssima produção de dados de biodiversidade, entre outras razões porque há vários investigadores que acham que não ter dados nenhuns é melhor que ter dados com problemas de verificação e validação.
Eu não estou de acordo.
henrique pereira dos santos

terça-feira, fevereiro 16, 2010

10th Essex Conference in Critical Political Theory



THEORY IN THE FACE OF GLOBAL CHALLENGES:
CAPITALISM & ECOLOGY, COMMUNITY & CITIZENSHIP

Call for Papers

Dates: 16-18 June 2010
Location: University of Essex, Colchester, UK
Call for Papers Deadline: 30 April 2010
Website:http://www.essex.ac.uk/idaworld/10th_Essex_Conference_in_Critical_Political_Theory.html
All Inquiries to: polcon@essex.ac.uk

Keynote Speakers
ROMAND Coles is Professor of Community, Culture & Environment at Northern Arizona University.
DIANA Coole is Professor of Political & Social Theory at Birkbeck, University of London.
STEPHEN K. White is James Hart Professor of Politics at the University of Virginia.

Other Confirmed Speakers Include
JANE Bennett, The Johns Hopkins University (USA)
WILLIAM E. Connolly, The Johns Hopkins University (USA)
ERNESTO Laclau is Emiritus Professor of Political Theory at the University of Essex.
FRANCISO Panizza, London School of Economics and Political Science (UK)

Organizing Committee at the University of Essex
JASON Glynos, Department of Government, University of Essex
DAVID Howarth, Centre for Theoretical Studies, University of Essex
ALETTA J. Norval, Centre for Theoretical Studies, University of Essex
JONATHAN Dean, Department of Government, University of Essex
KHAIRIL Ahmad, PhD Candidate, Department of Government, University of Essex
GRAHAM Walker, PhD Candidate, Department of Government, University of Essex

Methodology Workshops Organizing Committee
GRAHAM Walker, PhD Candidate, Department of Government, University of Essex

The Conference Theme: Theory in the Face of Global Challenges: Capitalism
& Ecology, Community & Citizenship


FEW doubt, today, that we face a series of connected global challenges: the dangers of climate change and environmental degradation; a crisis of international finance and global capitalism; an ever-increasing logic of minoritization, which threatens to fragment communities and societies;
greater social and economic inequalities, both nationally and globally; the intensification of various forms of religious belief, including fundamentalism, alongside a growing secularization of communities and societies; and a palpable disillusionment with politics and politicians.

THEORISTS and scholars in the humanities, social sciences, and the natural sciences also face new challenges: insistent demands to show the relevance? of their research for the ?real world?; diminishing resources and institutional support; a growing marginalization from mainstream and
corporately subsidized research. Universities and colleges are being compelled to show that their research has a ?direct impact? on the economy, public policy, or society in order to secure funding and research grants.

THEORY in the Face of Global Challenges: Capitalism & Ecology, Community & Citizenship? takes up the challenge of rethinking different aspects of global capitalism, religion, the place of minorities, and the environment.
It will also problematize and explore the role of theory in the academy and in relation to the pressing issues we confront.

HOW do we problematize and critically explain these new phenomena? What are the limits and potentials of contemporary political and ethical theory in addressing these new issues? What is the relationship between community, citizenship, and democracy? What kind of ethos needs to be cultivated in the face of these new challenges, and how can it be brought about? Must ecology be sacrificed on the altar of rebuilding the global capitalist system, or is an eco-egalitarian alternative possible? In what ways can various fundamentalisms be challenged and engaged with in the name of a democratic politics that is not itself fundamentalist in character? What is the relationship between cultural theory, radical materialism and various sorts of naturalism? What are the prospects and limits of pluralizing pluralism? Ought we to restrict agency to humans, or
does it extend to the material and non-human world more generally? What is the relationship between nature and culture? How can cultural theory respond to recent developments in science? How do these broad sets of issues and questions get addressed in specific contexts and policy arenas?
And what theoretical languages and methods are best able to respond to these changes and trends?

THESE are just some of the tasks of critical political theory today. Our invited speakers shall deliver keynote addresses to the conference that will shape the discussions with their distinctive voices and perspectives.
Each of the speakers will address one or more of the themes announced in the title.

ROMAND Coles is Professor and Director of the Programme in Community, Culture & Environment at Northern Arizona University. He works at the intersections between radical democratic theory, continental philosophy, and grassroots democratic activism. During his two decades at Duke University he co-founded and co-directed an interdisciplinary project called Dialogical Ethics and Critical Cosmopolitanism, as well as The Third Reconstruction Institute, which cultivated collaborations between scholars and grassroots organizers across the South-Eastern United States.
He currently directs the Programme for Community, Culture, and Environment at Northern Arizona University where he writes, teaches and organizes politically on issues pertaining to building grassroots democracy in schools, developing a green economy, crafting public spaces, immigration rights, urban agriculture, and the engaged pedagogy movement in higher education. His writings include: Self/Power/Other: Political Theory and Dialogical Ethics; Rethinking Generosity: Critical Theory and the Politics of Caritas; Beyond Gated Politics: Reflections Toward the Possibility of Democracy; and (with Stanley Hauerwas) Christianity, Democracy, and the Radical Ordinary: Conversations Between a Radical Democrat and a Christian. Romand`s address will explore possibilities for radical democratic transformation toward a green political economy, focusing on vital micro-relational dynamics among humans and the nonhuman that nurture revolutionary enthusiasms, hopeful visions of possibility, and networks of political power necessary for constructing alternatives to ecocidal global capitalism. His discussion will make connections between grassroots community organizing initiatives in which he is involved, theories of mimesis and mirror neurons, and broadening experiments in alternative political economy.

DIANA Coole is Professor of Political and Social Theory at Birkbeck, University of London. Her many books and articles include Women in Political Theory: From Ancient Misogyny to Contemporary Feminism, 2nd Edition (Hemel Hempstead, Harvester-Wheatsheaf & Colorado, Lynne Rienner, 1993); Negativity and Politics: Dionysus and Dialectics from Kant to Poststructuralism (London & New York, Routledge, 2000); Merleau-Ponty and Modern Politics after Anti-Humanism (Rowman and Littlefield, 2007); Materialism and Subjectivity (Duke University Press, 2007). Her address will focus on the discursive and ethical framing of question the population question for developed countries. Her concerns thus engage the intersection between capitalism and the environment, whilst raising significant controversies about immigration, community and new forms of citizenship. Drawing on her extensive knowledge of modern political and social theory, and contemporary continental political philosophy, she will also explore the role of theory and theorists in addressing these issues and their policy implications.

STEPHEN K. White is James Hart Professor of Politics at the University of Virginia. His books include The Recent Work of Jurgen Habermas (Cambridge University Press, 1988) and Political Theory and Postmodernism (Cambridge University Press, 1991); Edmund Burke: Modernity, Politics and Aesthetics (Sage, 1994). He has also edited volumes entitled Lifeworld and Politics:
Between Modernity and Postmodernity (University of Notre Dame Press, 1989) and the Cambridge Companion to Habermas (Cambridge University Press, 1995). His contribution to the forthcoming conference arises from his most recent book - The Ethos of a Late-Modern Citizen ? where he contends that the global challenges facing Western democracies require a systematic
re-examination and re-articulation of the role of citizens and citizenship. His approach does not deny, in the name of tradition, the force of what is new, nor does he imagine that we can adequately confront change by simply rejecting the traditions of modern Western political thought. Instead, he offers an incisive interpretation of our late-modern ethical-political condition and explains how a distinctive ethos or spirit of citizenship might constitute part of an exemplary response. This ethos requires reworking basic figures of the modern political
imagination, including our conception of the self, citizenship, and democratic politics.


***

THE TENTH CONFERENCE IN CRITICAL POLITICAL THEORY at the University of
Essex provides a space to address and engage with these issues. The conference has achieved a renowned reputation for the quality of the papers presented and the large number of international participants.
Previous guest speakers have included Bill Connolly, Michael Hardt, Wendy Brown, Judith Squires, Quentin Skinner, Joan Copjec, James Tully, Jane Bennett, Fred Dallmayr, Bonnie Honig, David Owen, David Campbell, Simon Critchley, Ernesto Laclau, and Chantal Mouffe, amongst others. This year the conference will be hosted by the IDAWorld, Centre for Theoretical Studies, and the Department of Government at the University of Essex.

THE conference provides an important opportunity to engage with the contemporary challenges and possibilities of social and political theory and to exchange views on ongoing research. We welcome papers from all scholars, including postdoctoral researchers, postgraduates and early
career scholars from a wide variety of backgrounds in the field of social and political theory. But as is customary with the Essex conference, the themes are in part shaped by the thought and writings of our invited guests, and this year is no exception. We are delighted to host Professors
Romand Coles, Diana Coole, Ernesto Laclau & Stephen White.

Broad Themes Include
* Rethinking Community and Citizenship
* Critical Political Economy
* Discourse & the Media
* Politics of Immanence and Transcendence
* Ecology and Capitalism
* Politics and Technology
* Latin American Politics
* Universalism and Particularism
* Democracy and Representation
* Capitalism, Multiculturalism, Globalization
* Identity Politics and Mobilization
* Subjectivity and Psychoanalysis
* Religion, Faith and Pluralism
* Discourse and Affect
* Fundamentalisms
* New Ecologies
* Philosophies of Nature
* Discourse, Governance & Public Policy
* Culture and Political Economy
* The Politics of Space, Time and Territoriality
* Reworking Identity/Difference


Proposals for Papers, Panels and Roundtables
The conference organizers welcome proposals for individual papers; full panels (with papers); and roundtables (focused on discussion of a common theme rather than the formal presentation of papers). Paper, panel, and roundtable proposals (short abstracts) should be sent to polcon@essex.ac.uk no later than 30th April, 2010. Inquiries may also be sent to that address. Decisions on proposals will be made on a rolling basis. Inquiries may also be sent to that address. Final papers will be posted on the conference website.

Methodology Workshops
Some of the sessions will be devoted to methodological workshops. The 90-minute workshop sessions feature specialists in different aspects of critical and poststructuralist political analysis. The workshop sessions take the form of a master-class, with senior researchers meeting a small
number of early career researchers using a particular methodological strategy or technique. The focus will be on questions raised by researchers, and their research will be treated as case studies to generate and engage a set of methodological questions.
The workshops aim at creating a setting where early career researchers can benefit from interaction with experts in their field. The sessions will be facilitated by fellow early career researchers, and the discussants will be established and renowned names in the field of interpretative political analysis, such as Jason Glynos, David Howarth and Aletta Norval. The
sessions are fully incorporated into the regular conference program, and the sessions are open to all conference participants.
In order to take part in a workshop session, early career researchers invited to present their work in one of these will be asked to introduce their research project in a 2-3 page summary, pointing to the particular difficulties or methodological questions that arise from their research
that they would like to explore in the workshop. Please note it clearly in your inquiry if you wish to be considered for inclusion in a Methodology Workshop. The deadline for inquiries is 30 April 2010. For additional questions, please do not hesitate to contact the chair of the Methodology
Workshop Advisory Board (polcon@essex.ac.uk) marking your inquiry clearly for attention: Graham Walker.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Criacionismo e "cepticismo" climático

Poderíamos mudar o texto do carro e ler:

Climate change?
Tree rings say no!
Climate change is a fairy tale for grown-ups!
Good bless America!

Conheço bem o risco que o raciocínio por analogia comporta mas esta tarde quando ouvia a cativante palestra de Janet Browne, a biógrafa mais autorizada de Charles Darwin, professora na Universidade de Harvard, não pude deixar de estabelecer algumas analogias entre o fenómeno criacionista e do cepticismo climático, ambos com forte implantação nos Estados Unidos da América.

Numa passagem da sua conferência, Janet Browne referiu o facto de, apesar de ser agnóstico, Darwin foi enterrado na Westminster Abbey de Londres, a igreja onde se enterram os heróis nacionais no Reino Unido. Por ocasião do seu enterro elogiaram-se as qualidades pessoais e profissionais de Darwin, tendo sido este apresentado como o exemplo de um bom homem e um grande cientista. Não muito tempo depois, Darwin e a sua obra foram vilipendiadas por activistas de várias Igrejas cristãs tendo este processo culminado com o aparecimento do movimento criacionista nos EUA. Este é o movimento que nega a evolução assim como toda a evidência que a suporta, proclamando, entre outras bizarrias, que os dinossauros se extinguiram na idade média.

Uma pergunta que se coloca é porque razão terá o movimento criacionista tanta pujança nos EUA quando na Europa, Darwin está longe de ser considerado um inimigo do cristianismo. Esta pergunta é importante e a sua resposta ajudará a entender um pouco o mecanismo social que conduz ao aparecimento do cepticismo climático. A forte contestação ao pensamento de Darwin surge, na realidade, porque muitos cristãos americanos vêm na teoria da evolução uma ameaça os dogmas da religião, logo às suas crenças e "modus vivendi" mais profundos. Arriscava-me a afirmar que a maioria (talvez todos) os movimentos sociais anti-ciência tiveram, ao longo da História, um principio semelhante: factos e descobertas da ciência percepcionadas socialmente como uma ameaça ao conforto e ao estabelecido tornando-se, desta forma, um alvo a abater.

As alterações climáticas e as respostas necessárias para a mitigar são um exemplo, óbvio, de um facto científico que, a comprovar-se, ameaçaria o "status quo" e o conforto de muitos de nós. Logo, não é de estranhar que, da mesma forma como o Darwinismo gerou um movimento social de larga escala contra a teoria da evolução, as alterações climáticas, vistas como uma teoria e não um facto, têm potencialidade para gerar um movimento com a potencialidade de atingir proporções semelhantes. Note-se, aliás, que são os países que mais têm a perder com a adopção das medidas de mitigação, designadamente os EUA e os países árabes produtores de petróleo, que mais se têm oposto à concepção de que o clima tem vindo a mudar devido ao impacte das actividades humanas.

No final da conferência, Jant Browne perguntou se a educação seria a solução para o problema do criacionismo nos EUA, tendo imediatamente respondido que duvidava que assim fosse. Na realidade e esta é a conclusão que chegámos numa conversa, no final da conferência, a solução passa por convencer os criacionistas que a teoria da evolução "não morde" e que os cristão de várias congregações podem continuar a ser felizes sabendo que descendemos de um ancestro comum sem que isso retire humanidade ao ser humano nem, para quem quiser pensar assim, que possa ter sido necessária intervenção divina para que aparecesse no planeta terra a matéria prima necessária para que a evolução se iniciasse. Nesta linha vai o pensamento de E.O Wilson que, aproximando-se do final da sua vida, conclui que a única forma de combater o criacionismo é estabelecendo pontes entre os biólogos evolutivos e representantes de várias igrejas. Por analogia, também é esta a visão de Judie Currie (ver também editorial da revista "The Economist") que defende a necessidade de se reforçarem plataformas de diálogo entre os estudiosos do clima e os que se têm mostrado pouco disponíveis para acreditar na bondade da sua investigação.

domingo, novembro 29, 2009

Walt Disney e os lobos da serra da Nave


"Por vezes, a compreensão da ideologia basta para restabelecer a "normalidade" de um comportamento. Recordemos um único exemplo: a imitação dos gritos dos animais. Durante mais de um século, acreditou-se que esses gritos estranhos do xamane eram a prova do seu desequilíbrio mental. Porém, tratava-se de coisa muito diferente: da nostalgia do Paraíso que assediava já Isaías e Virgílio, que alimentava a santidade dos padres da Igreja e que desabrochava, vitoriosa, na vida de São Francisco de Assis".
Estou convencido de que Mircea Eliade encontraria no Público de hoje matéria que lhe interessasse sobre os mitos do bom selvagem ou a nostalgia do Paraíso.
É muito interessante verificar como no coração do pensamento moderno se mantém vivo o pensamento selvagem, como desde sempre.
""Imagino-me a ser lobo agora e há cinquenta anos. Eles acabaram por se habituar a um novo meio onde há mais pessoas do que havia e há carros", diz Sara Roque, também bióloga do Grupo Lobo".
Deixando de lado a fascinante análise da relação com os grupos humanos e os animais totémicos adoptados, vejamos como o mito se encrava no seio do discurso dos cientistas, o que não é o mesmo que dizer no discurso científico.
É muito interessante como Sara Roque abandona a lógica científica (a compreensão dos animais enquanto animais) para encarnar a lógica da humanização dos animais, mesmo que disfarçada da animalização dos homens (a técnica genial de Walt Disney).
E é porque se abandona o campo do pensamento científico, trocando-o pelo pensamento selvagem e a clássica nostalgia do Paraíso que é possível ouvir Sara Roque falar de um tempo mítico em que os lobos não tinham de conviver com pessoas e carros.
O curioso é que os lobos não se preocupam excessivamente com os carros, sabem conviver com eles, têm sido encontradas evidências de reprodução muito próximo de áreas altamente perturbadas, como a construção de estradas ou de parques eólicos. Para além disso ninguém sabe se o lobo fica mais perturbado com um carro que passa com um trajecto definido e num espaço de tempo curto ou se com uma matilha de cães, por exemplo. Mas mais que tudo, há cinquenta anos aquelas serras tinham incomparavelmente mais gente e mais actividade que têm hoje.
Mas nada disto interessa muito porque na realidade o que se trata é de uma comunhão emocional com o animal e não de um trabalho científico como seja procurar compreendê-lo na sua irredutível diferença dos humanos.
O mesmo se diria de Francisco Álvares, quando compara a serra à nossa casa e fala de torres eólicos na sala e no quarto.
É de novo um pensamento que sai das regras estreitas do pensamento científico que lhe permite dizer que:
1) os lobos são muito fiéis ao seu território e já se constatou, nas áreas onde foram construídos parques eólicos, que eles não desapareceram desses locais (facto verificado);
2) mas alteram comportamentos (facto verificado);
3) com mais parques eólicos há mais dificuldade na obtenção de alimentos, de caça e na reprodução (facto não verificado em lado nenhum, mas coerente com a ideia de que alteração é sempre perda, muito comum na base ideológica da biologia da conservação).
O mais curioso é que o facto dos lobos se manterem alterando os seus comportamentos não é avaliado como positivo (embora na teoria a capacidade de adaptação a novas circunstâncias seja considerada como uma vantagem) mas sim como uma hipótese de problema, aliás não verificada empiricamente.
Voltarei provavelmente a este fascinante artigo do Público de hoje, mas não quis deixar de assinalar como é ténue a fronteira que separa o pensamento moderno do pensamento selvagem quando estão em causa fenómenos a que estamos ligados por profundas emoções.
henrique pereira dos santos

sexta-feira, outubro 30, 2009

Evolução e inteligência dos organismos

Tenho o prazer de poder disponibilizar a palestra de Dick Vane Right na Universidade de Évora. Uma informação sintetizada sobre o autor e a palestra pode ser lida aqui.

sábado, julho 25, 2009

O génio egoísta?

Richard Dawkins é um dos intelectuais mais proeminentes dos nossos tempos. Além de ser um interprete e divulgador da moderna teoria da evolução (destaca-se, entre outros, a publicação do livro "The Selfish Gene") tem tido a coragem, rara, de assumir publicamente um ateísmo militante que culminou na escrita do seu livro "The God Delusion".

"when one person suffers from a delusion it is called insanity. When many people suffer from a delusion it is called religion".

Quem se mete nestas andanças não pode, naturalmente, pretender passar despercebido e a polémica gerada em torno da sua argumentação contra as religiões não surpreende.

Mas é interessante ver que alguns dos seus críticos aparecem do lado que menos se esperava, ou seja, dos biólogos. Um livro recentemente publicado por Fern Elsdon-Baker, "The Selfish Genius: How Richard Dawkins Rewrote Darwin’s Legacy", oferece uma interpretação diferente - algo criativa - do Darwinismo para depois a usar como arma de arremesso contra os argumentos ateus de Dawkins. Vale a pena ler o livro de Dawkins para depois melhor seguir o debate. Uma interessante recensão sobre o tema foi publicada pela revista "The Economist".

sexta-feira, outubro 24, 2008

O sisão

AS Roubei na net esta fotografia a Vitor Maia. Se alguém souber como se contacta o seu autor por favor digam-lhe que tirarei imediatamente a fotografia se considerar este uso não comercial como abusivo

Fiz há algum tempo uns posts sobre a forma como a informação favorável ao que a generalidade do movimento conservacionsta considera a tomada de medidas positivas para a conservação é pouco escrutinada.
Num encontro fortuito alguém me disse: "já sei que contestaste o estatuto de ameaça do sisão que consta do livro vermelho dos vertebrados". A frase em si não é verdadeira, não contesto essa classificação, não sei o suficiente para isso.
Mas tenho efectivamente uma enorme perplexidade pela prioridade dada a esta espécie no financiamento de acções de conservação. E acho que é possível, não digo que exista, acho apenas possível, que as pessoas mais ligadas à sua conservação moldem um bocadinho os dados à vontade, legítima, de manter um elevado grau de prioridade à sua conservação.
Vejamos então.
O livro vermelho classifica, à semelhança do que é feito em Espanha, o sisão como vulnerável numa escala que vai do "quase ameaçado" (a minha categoria favorita pelo que representa de todo um programa ideológico), ao criticamente em perigo, passando pelo em perigo e vulnerável (estes três estão por ordem de mais ameaçado para menos ameaçado).
Como o livro vermelho dos vertebrados de Portugal é um bom livro vermelho, como uma quantidade incrível de informação (reeditado em terceira edição recentemente, passe a propaganda) é possível ir procurar na ficha da espécie a fundamentação para esta classificação.
A União Internacional para a Conservação da Natureza estabelece, para a classificação de uma espécie como ameaçada, um conjunto de critérios. Se apenas houvesse uma população de sisão no mundo e a sua dimensão fosse de menos de 10 000 indivíduos automaticamente entraria na classificação de vulnerável (até um limiar menor a partir qual passaria a em perigo e outro ainda menor a criticamente em perigo).
Ora o Livro Vermelho aplica às populações portuguesas critérios que são definidos para populações globais (ou, em alternativa, populações isoladas). E depois aplica uns critérios de adaptação que não me parecem inteiramente sólidos (e reconheça-se como difícil esta tarefa).
No caso do sisão a estimativa da população em Portugal é de superior a estes 10 000 indivíduos (provavelmente 20 000) e se fosse considerada a população ibérica, que é separada artificialmente pelo limite administrativo que é a fronteira entre Portugal e Espanha, passaria largamente este número visto as estimativas oscilarem actualmente entre os 100 000 e os 200 000 indivíduos.
Consequentemente não é este o critério usado para classificar a espécie como vulnerável mas a sua dinâmica populacional, isto, o facto de se estimar uma perda de efectivos superior a 30% nos últimos 10 anos.
E aqui é que a porca torce o rabo. A verdade é que não há dados directos para estimar esta diminuição da população porque não há estimativas fiáveis da população de há dez anos. Portanto esta dinâmica é estimada a partir da dinâmica dos habitats da espécie.
Ou seja, admite-se uma redução de trinta por cento da área agrícola de cereais de sequeiro e estimam-se mais trinta por cento para os próximos dez anos, o que leva a supor que o declínio irá outra vez acentuar-se mais trinta por cento.
Dir-se-ia que provavelmente estão fundamentados estes dados de dinâmica de uso do solo, visto que sobre isso há informação há bastantes anos em Portugal.
Pois.
Esse detalhe de fundamentação não é evidente. Aparentemente basta a convicção de especialistas em sisão que não são especialistas em dinâmicas de paisagem.
O facto da área agrícola estar praticamente estabilizada nos dois últimos inventários florestais, por exemplo, não parece ser obstáculo a esta visão catastrófica da situação do sisão e dos seus habitats.
Dir-se-á que se for transformado sequeiro em regadio, ou cereal em olival a área agrícola se mantém mas o habitat do sisão não. Sim claro, da mesma forma que se for transformado cereal em pastagem de sequeiro pode ser considerada uma alteração do uso do solo mas não é linear que seja uma perda de habitat para o sisão.
Mas a questão não é tanto saber quem tem razão no estatuto de ameaça.
A questão é saber por que razão, havendo instrumentos que permitem tirar estas dúvidas, se opta por aceitar, sem mais, o consenso científico dos principais interessados na definição do estatuto de ameaça.
E a minha tese é a de que há muito quem ache que é eticamente admissível uma certa moldagem dos dados aos resultados que se pretendem obter, se for a favor da conservação .
Eu discordo por achar que a confiança é um valor maior e mais seguro que a medida imediata de conservação que se consegue obter desta forma.
E perder a confiança da sociedade na informação produzida pelo movimento conservacionista, nomeadamente pelos investigadores empenhados na conservação da biodiversidade seria uma tragédia para o sisão e todos os outros valores que se pretendem conservar.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, junho 21, 2007

Sir David Attenborough: A verdade sobre as alterações climáticas?

Um vídeo curto, bastante bem feito, na linha do que nos tem habituado David Attenborough. A questão de fundo, claro, é se a coincidência entre observação e modelo demonstra inequivocamente que o modelo incorpora os mecanismos que geram os fenómenos observados. Esta é, obviamente uma discussão filosófica importante que ficou fora do âmbito do programa. Há uns tempos escrevi sobre o assunto com mais detalhe. Quem estiver interessado pode ler aqui (a discussão final é a parte que poderá ter mais interesse para o leitor não especializado).

quarta-feira, abril 25, 2007

Sobre o cepticismo na ciência

I suggest there have always been two kinds of original thinkers: Those who upon viewing disorder try to create order, and those who upon encountering order try to create disorder. The tension between the two is what drives learning forward. It lifts us upward through a zigzagging trajectory of progress. And in a Darwinian contest of ideas, order always wins, because – simply – that is the way real world works.

E.O. Wilson. In “Consilience: The Unity of Knowledge”. Abacus (1998)

sexta-feira, setembro 08, 2006

Incerteza dos modelos bioclimáticos

Tenho publicado inúmeros “posts” sobre o tema biodiversidade e alterações climáticas e um tema recorrente neste blogue são as incertezas dos modelos que fazem projecções sobre impactes do clima sobre a distribuição das espécies.

Hoje publiquei, conjuntamente com Carsten Rahbek, um artigo de “perspectiva” sobre este mesmo tema na revista Science.

Quem estiver interessado poderá aceder ao artigo aqui.

Comunicado de imprensa do CSIC: em Castelhano

segunda-feira, junho 19, 2006

As alterações climáticas poderão ameaçar os anfíbios e répteis do Sudoeste da Europa

Número de espécies de anfíbios cujas condições climáticas poderão ser desfavoráveis em 2050. Cores quentes representam números elevados de espécies com condições desfavoráveis.

Comunicado de imprensa:

As alterações climáticas previstas poderão causar contracções substanciais nas distribuições de anfíbios e répteis do sudoeste da Europa, de acordo com um novo estudo publicado na revista "Journal of Biogeography". A equipa liderada pelo investigador Miguel Araújo projectou as distribuições de 42 espécies de anfíbios e 66 espécies de répteis, nos próximos 20-50 anos, utilizando 4 cenários de emissões de gases de estufa propostos pelo Painel Inter-governamental sobre Alterações Climáticas assim como 2 modelos climáticos (HadCM3 e CSIRO2). Os investigadores descobriram que os aumentos previstos temperatura não seriam causa provável de declínio das espécies de anfíbios e répteis na Europa. Um cenário de arrefecimento global seria, na realidade, bastante pior.

No entanto, o aumento de aridez previsto para o sudoeste da Europa poderá causar reduções acentuadas na área de distribuição de quase todas as espécies de anfíbios e répteis que ocorrem actualmente em Portugal, Espanha e França. Os impactes que se prevêem para estes Países não são triviais dado o facto de albergarem 62% de todas as espécies de anfíbios e répteis que ocorrem na Europa. A elevada percentagem de anfíbios e répteis que ocorrem nestes três Países deve-se ao facto da Península Ibérica ter constituído um importante refugio para a sobrevivência de espécies de anfíbios e répteis durante os períodos glaciares que antecederam o período quente actual. Segundo Miguel Araújo a verificarem-se as alterações climáticas previstas, "estas regiões que foram chave para a sobrevivência dos anfíbios e répteis poderão transformar-se em regiões com elevadas taxas de extinção".

Pode aceder ao artigo completo aqui

Notícias sobre esta notícia: Blackwell Science; Ciência Hoje; Diario Siglo XXI; Jornal de Notícias; Metro Espanha, MNCN, Rádio Renascença

Respostas a eventuais perguntas sobre este artigo serão dadas no espaço de comentários deste “post”

sábado, janeiro 28, 2006

Mitos climáticos errou


Num post intitulado “aquecimento global ridículo” o blogue mitos climáticos critica um estudo publicado recentemente na revista “Nature”:

Trata-se de um artigo cómico-científico sobre a influência do designado aquecimento global na extinção das rãs! O ridículo é tanto que há quem considere extinta, sim, a credibilidade científica da Nature quanto ao tema do aquecimento global”.

A base para tal critica baseia-se no facto de a revista ter, alegadamente, publicado um artigo rejeitado por um dos avaliadores independentes do estudo:

Um peer-reviewer, a quem os editores da revista tinham solicitado um parecer sobre a proposta de publicação do artigo, tinha aconselhado a não incluí-lo na “Nature”.

Ultrajado pela decisão da revista o avaliador teria publicado o resultado da sua avaliação num blogue climático. Na dita avaliação independente, lê-se:

I presume that you will not publish this paper for the many reasons given above. If it does appear in Nature in anything close to its present form, the credibility of your journal may be beyond repair”.

Confesso que ao ler este “post” fiquei preocupado. É que a prática de rejeição de artigos na revista “Nature” (assim como na “Science”) é extremamente dura. Em geral basta que um dos três revisores independentes, a quem a revista solicita parecer, seja francamente negativo para que o artigo seja rejeitado. Portanto, a ser verdade o que diz o “post” dos “mitos climáticos”, esta seria uma excepção legitimando as interpretações feitas no blogue.

Acontece que o que está escrito nos “mitos climáticos” não corresponde à verdade. O artigo em que se baseia o “post” inclui, de facto, uma crítica feroz ao artigo da revista “Nature”. Mas o alegado relatório de avaliação do artigo nunca foi solicitado pela revista “Nature” nem sequer a ela enviado. Se o articulista dos mitos climáticos tivesse lido com atenção o que o autor da crítica escreveu teria reparado nesta frase que antecede a dita avaliação:

As a concrete example, assume that Nature’s editors had sent me this manuscript for peer-review. Here’s what I would have responded”.

Repararam no uso do condicional "would"? Quer isto dizer que a alegada revisão independente não passa de uma encenação e que o processo de avaliação da revista “Nature” decorreu com normalidade. Logo a alegada falta de credibilidade da revista “Nature” não foi manchada como proclama o articulista dos Mitos Climáticos nesta frase, no minimo, apressada:

Pois apesar do aviso dado pelo revisor científico, o artigo foi mesmo publicado e a credibilidade da revista ficou manchada”.

A ciência climática está em processo de ebulição. Todas as semanas apresentam-se novos avanços e descobertas que contribuem para consolidar conhecimento e ajudar a compreender o funcionamento global do clima e sua relevância para os sistemas que dele dependem. Concordo que existem incertezas importantes associadas à teoria do efeito de estufa. Estou convicto de que é essencial existirem cépticos motivados para re-interpretar as observações climáticas à luz de paradigmas alternativos. Assim funciona a ciência. Assim avança o conhecimento. Mas não vale a pena transformar a batalha das interpretações num jogo de manipulação fácil de informação.

terça-feira, junho 28, 2005

Resultados obtidos com um modelo podem não ser melhores que uma solução aleatória!



Um estudo publicado na revista “Global Ecology and Biogeography” demonstra que o grau de incerteza nas previsões de modelos bioclimáticos pode ser bastante superior ao estimado anteriormente. O estudo representa um primeiro teste independente sobre a "performance" deste tipo de modelos e apresenta sugestões, igualmente testadas, para minimizar este erro.

Os resultados deste estudo têm um alcance duplo. Por um lado propõe-se uma nova abordagem para a modelação de impactes climáticos sobre a biodiversidade e por outro acrescenta-se um elemento adicional de cautela no que respeita as interpretações que possam ser feitas sobre os inúmeros estudos que têm sido publicados e que apontam para estimativas, quantitativas, catastróficas sobre o impacte das alterações climáticas na biodiversidade.

Ver comunicado de imprensa da “
Blackwell Science”.

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Biogeografia da Conservação

A primeira edição deste ano da revista “Diversity and Distributions”, vem um novo sub-título: uma revista de Biogeografia da Conservação. Este sub-título substitui o anterior (revista de Invasões Biológicas). A relevância desta mudança prende-se com o reconhecimento formal da existência de uma nova área científica que procura aplicar princípios, teorias e instrumentos analíticos da Biogeografia para a conservação da biodiversidade. Este campo de intervenção tanto pode considerar-se uma sub-disciplina da Biologia da Conservação como da Biogeografia. O que importa é reconhecer que muitos dos desafios que se colocam, hoje em dia, no que respeita a conservação da biodiversidade, se processam a escalas globais pelo que é necessário estudar muitos destes problemas a escalas biogeográficas e tal implica o repensar de alguns paradigmas analíticos.

Para os mais interessados recomendamos a leitura do artigo que formaliza o conceito e revê alguns trabalhos que têm vindo a ser desenvolvidos nesta óptica:

Whittaker, R.J., Araújo, M.B., Jepson, P., Ladle, R.J., Watson, J.E.M., and Willis, K.J. 2005. Conservation biogeography: assessment and prospect. Diversity and Distributions, 11, 3-23

Pode ser acedido directamente através do site da revista, ou num site privado de um dos autores.


Boas leituras