sexta-feira, 19 de março de 2021

Raphael Bordallo Pinheiro (1846 —1905)















Fará 175 anos em 21 de Março que Raphael Augusto Prostes Bordallo Pinheiro nasceu em Lisboa.

O seu nome está intimamente ligado à caricatura portuguesa, à qual deu um grande impulso, imprimindo-lhe um estilo próprio que a levou a uma qualidade nunca antes atingida. É o autor da representação popular do Zé Povinho, que se veio a tornar num símbolo do povo português.

Irmão do pintor Columbano, Bordallo Pinheiro foi um artista português, de obra vasta dispersa por largas dezenas de livros e publicações, precursor do cartaz artístico em Portugal, desenhador, aguarelista, ilustrador, decorador, caricaturista político e social, jornalista, ceramista e professor.

Vivendo numa época caracterizada pela crise económica e política, Raphael enquanto homem de imprensa soube manter uma indiscutível independência face aos poderes instituídos, nunca calando a voz, pautando-se sempre pela isenção de pensamento e praticando o livre exercício de opinião. Esta atitude granjeou um apoio público tal que, não obstante as tentativas, a censura nunca logrou silenciá-lo.

Essa independência e o enfrentar dos poderes instituídos originaram-lhe alguns problemas como por exemplo o retirar do financiamento d'O António Maria como represália pela crítica ao partido do seu financiador. Também no Brasil, onde viveu três anos, arranjou problemas, onde chegou mesmo a receber um cheque em branco para se calar com a história de um ministro conservador metido com contrabandistas. Quando percebe que a sua vida começa a correr perigo, volta a Portugal, não sem antes deixar uma mensagem.

O DESENHADOR – Bordalo Pinheiro, que começou a fazer caricatura por brincadeira, deixou um legado iconográfico verdadeiramente notável,tendo produzido dezenas de litografias e composto inúmeros desenhos para almanaques, anúncios e revistas nacionais e estrangeiras como El Mundo Comico (1873-74), Ilustrated London News, Ilustracion Española y Americana (1873), L'Univers Illustré e El Bazar.

Dotado de um grande sentido de humor mas também de uma crítica social bastante apurada e sempre em cima do acontecimento, caricaturou todas as personalidades de relevo da política, da Igreja e da cultura da sociedade portuguesa. Apesar da crítica demolidora de muitos dos seus desenhos, as suas características pessoais e artísticas cedo conquistaram a admiração e o respeito público que tiveram expressão notória num grande jantar em sua homenagem realizado na sala do Teatro Nacional D. Maria II, em 6 de Junho de 1903 que, de forma inédita, congregou à mesma mesa praticamente todas as figuras que o artista tinha caricaturado.

São notáveis as suas caricaturas da queda da monarquia.

O CERAMISTA – Encarregado de chefiar o setor artístico da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha (1884), aí encetou um grande processo de renovação da cerâmica caldense. Dedicou-se à produção de peças de cerâmica que, nas suas mãos, rapidamente, adquiriram um cunho original. Jarras, vasos, bilhas, jarrões, pratos e outras peças demonstram um labor tão frenético e criativo quanto barroco e decorativista, características, aliás, também presentes nos seus trabalhos gráficos.

Não se restringiu à fabricação de loiça ornamental. Além de ter desenhado uma baixela de prata da qual se destaca um originalíssimo faqueiro que executou para o 3º visconde de S. João da Pesqueira, satisfez dezenas de pequenas e grandes encomendas para a decoração de palacetes: azulejos, painéis, frisos, placas decorativas, floreiras, fontes-lavatório, centros de mesa, bustos, molduras, caixas, e também broches, alfinetes, perfumadores, etc.

A par das esculturas que modelou para as capelas do Buçaco representando cinquenta e duas figuras da Via Sacra, Bordalo apostou sobretudo nas que lhe eram mais gratas: o Zé Povinho (que será representado em inúmeras atitudes), a Maria Paciência, a mamuda ama das Caldas, o polícia, o padre tomando rapé e o sacristão de incensório nas mãos, a par de muitos outros.

Embora financeiramente, a fábrica se ter revelado um fracasso, a genialidade deste trabalho notável teve expressão nos prémios conquistados: uma medalha de ouro na Exposição Colombiana de Madrid em 1892, em Antuérpia (1894), novamente em Madrid (1895), em Paris (1900), e nos Estados Unidos, em St. Louis (1904).

O JORNALISTA - Destacou-se também como um homem de imprensa, tendo sido durante cerca de 35 anos (de 1870 a 1905) a alma de todos os periódicos que dirigiu quer em Portugal, quer nos três anos que trabalhou em terras brasileiras.

Em 1870 lançou três publicações: "O Calcanhar de Aquiles", "A Berlinda" e “O Binóculo”, este último, um semanário de caricaturas sobre espectáculos e literatura, talvez o primeiro jornal, em Portugal, a ser vendido dentro dos teatros; seguiu-se o "M J ou a História Tétrica de uma Empresa Lírica" em 1873 e, logo a seguir em 1875, a "A Lanterna Mágica".

Seduzido pelo Brasil, também aí (de 1875 a 1879) animou "O Mosquito", o "Psit!!!" (1877) e "O Besouro".

O “António Maria” nas suas duas séries (1879-1885 e 1891-1898), abarcando quinze anos de actividade jornalística, constitui a sua publicação de referência. Ainda fruto do seu intenso labor, “Pontos nos ii” são editados entre 1885-1891 e A Paródia, o seu último jornal, surge em 1900. Também dirigiu o “Jornal da Infância” (1883) e teve colaboração no semanário “Jornal do domingo” (1881-1888).

A seu lado, nos periódicos, estiveram Guilherme de Azevedo, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, João Chagas, Marcelino Mesquita e muitos outros, com contributos de acentuada qualidade literária. Daí que estas publicações constituam um espaço harmonioso em que o material textual e o material icónico se cruzam de uma forma magistral.

O HOMEMD DE TEATRO – Com 14 anos apenas, integrado num grupo de amadores, pisou como actor o palco do teatro Garrett, inscrevendo-se depois na Escola de Arte Dramática que, devido à pressão da parte do pai, acabou por abandonar como viria a abandonar a carreira de actor. No entanto, estabeleceria uma relação com o teatro que nunca mais deixou.

Tendo esporadicamente desenhado figurinos e trabalhado em cenários, Raphael Bordallo-Pinheiro foi sobretudo um amante do teatro. Era espectador habitual das peças levadas à cena na capital, frequentava assiduamente os camarins dos artistas, participava nas tertúlias constituídas por críticos, dramaturgos e actores, e transpunha, semana a semana, o que via e sentia, para os jornais que dirigia. O material iconográfico legado por Raphael Bordallo-Pinheiro adquire, neste contexto, uma importância extrema porque permite perceber muito do que foi o teatro, em Portugal, nessas décadas.

Em centenas de caricaturas, Raphael Bordallo-Pinheiro faz aparecer o espectáculo, do ponto de vista da produção: desenha cenários, revela figurinos, exibe as personagens em acção, comenta prestações e critica 'gaffes'. A par disso, pelo seu lápis passam também as mais variadas reacções do público: as palmas aos sucessos, muitos deles obra de artistas estrangeiros, já que Lisboa fazia parte do circuito internacional das companhias; as pateadas estrondosas quando o público se sentia defraudado; os ecos dos bastidores; as anedotas que circulavam; as bisbilhotices dos camarotes enfim, todo um conjunto de aspectos que têm a ver com a recepção do espectáculo e que ajudam a compreender o que era o teatro e qual o seu papel na Lisboa oitocentista.

O Museu Raphael Bordallo Pinheiro, em Lisboa, e o Museu de Cerâmica das Caldas da Rainha reúnem parte significativa da sua obra e esperam por vós para uma visita que não vos decepcionará.

 

MEG (Adaptação de textos da internet)

domingo, 14 de março de 2021

As calhandreiras


 














A nossa amiga Sara Timóteo publicitou na sua página do Facebook um interessante trabalho da "Lisboa Secreta", em que esta organização anuncia:
"Calhandreira, queres ir ao farrobodó ou vais ficar a ver navios? Estas são apenas algumas das várias expressões populares que surgiram em Lisboa. Mas há muitas mais, por isso juntámos meia dúzia e fomos à procura de explicações: Como, onde e porque razão surgiram? Ora espreita a nossa lista e descobre também as respostas".

Com a devida vénia à Sara, o blogue ALDRABA vai repescar as respostas da "Lisboa Secreta", e reproduzi-las aqui uma a uma.

Começamos hoje por desvendar a origem da expressão "calhandreira":


É preciso recuar até aos séculos XVII ou XVIII para descobrir as origens deste termo. 

Dizem os estudiosos que está relacionado com uma espécie de penico da época, o “calhandro”, que era despejado e lavado no Tejo por um grupo de serviçais, ao serviço das famílias mais nobres e ricas da cidade.

Ora, essas mulheres aproveitavam a oportunidade para ficar (demoradamente) à conversa, contando e bisbilhotando tudo o que se passava nas casas dos patrões. 

A partir daí, o termo “calhandreira” ficou, para sempre, associado a quem se costuma meter na vida alheia.

"Lisboa Secreta"


domingo, 28 de fevereiro de 2021

Mensagem da Associação Farol


 









A nossa congénere O Farol - Associação de Cidadania de Cacilhas, na pessoa do seu presidente da Direção, o amigo Henrique Mota, fez-nos chegar uma mensagem da maior oportunidade, que aqui reproduzimos com todo o gosto, e em sinal da nossa solidariedade:

Atendendo aos tempos difíceis que todos atravessamos, a Direcção de “O Farol” faz questão de afirmar a nossa esperança no futuro.

Para a comunidade têm sido tempos de preocupação, de incertezas e de isolamento.

Também alguns elementos da nossa Associação, amigos e companheiros têm sido atingidos pela pandemia do Covid 19.

Nos casos mais extremos de dor e sofrimento, deixamos uma palavra de solidariedade às famílias daqueles que vão, silenciosamente, partindo. Também para os doentes, vítimas da Covid 19 e que lutam contra a doença nos hospitais ou em casa. Isto sem esquecer os efeitos colaterais e devastadores na sua saúde e que se reflecte em todos nós.

Estamos certos de que, ao longo dos tempos, a nossa comunidade criou uma tradição de resistência às catástrofes através da solidariedade e fraternidade de pessoas e instituições.

As limitações das liberdades e da circulação das pessoas não pode liquidar a produção intelectual e artística.

Estamos, por isso, disponíveis para que nos enviem os vossos textos, fotografias, poemas e outras expressões artísticas, para que as divulguemos.

Envie a sua participação para: cacilhasfarol@gmail.com

Fica, ainda, o apelo para que não deixemos que ninguém fique sozinho. Porque a solidão enfraquece o espírito e o corpo e mina as comunidades humanas. Comunique por si e pelos outros.

A resistência humana colectiva e a ciência, com as novas vacinas e medicamentos, vão-nos ajudar a quebrar esta “peste” e um dia destes vamos voltar mais fortes e caminhar pelas ruas em liberdade, sem máscaras, e renovar os abraços adiados.

A todos os trabalhadores da saúde, reitera-se o nosso profundo reconhecimento e agradecimento, pelo enorme esforço, dedicação e abnegação em cuidar de todos nós.

Mantenham-se fortes e protegidos em casa. Vivos, solidários e activos, ligados social e intelectualmente!

A Direcção de O Farol - Associação de Cidadania de Cacilhas

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O Prego no Pão - Porque se chama PREGO a um pão com carne?

 









Quem diria que o prego, ou bife no pão, surge em Portugal na Praia das Maçãs?

"A verdadeira história está relacionada com o nome Manuel Dias Prego, um dos primeiros habitantes da Praia das Maçãs no final do século XIX, local onde era proprietário de uma taberna. A Taberna do Prego.

Ora nessa taberna Manuel Prego servia fatias de vitela fritas ou assadas em pão saboroso e acompanhadas de vinho da região.

Rapidamente a carne em pão se tornou um sucesso na Praia das Maçãs e arredores. Diz-se que terá sido nesse local que José Malhoa pintou o seu famoso quadro “Praia das Maçãs” (1918). Quem sabe se saboreando tal iguaria enquanto pintava!

Com o passar dos anos, o nome da sandes passou a ser vulgarmente conhecida como Prego, em honra do seu criador, sendo que no início do século XX já havia sido copiada a receita para outros locais, começando o Prego a fazer parte das ementas das tabernas de todo país e não só de Sintra."

Referido por  José Alfredo da Costa Azevedo, no livro: " VELHARIAS DE SINTRA VI" edição de 1988, promovida pela Câmara Municipal.

MEG

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Licor "Africano"


 













Num período da nossa vida coletiva em que os temas do colonialismo e do racismo têm vindo a ser agitados, geralmente de forma muito pouco esclarecedora, vale a pena recordar alguns exemplos da iconografia salazarista relacionados com África:

Este é um rótulo de uma bebida, um licor talvez, cujo nome devia ser competitivo pelo domínio claro da preocupação com a "marca registada" e a sua contrafação, que representa quase todo o texto, com exceção do nome "Africano". 

A representação do "africano" é comum - o carácter simiesco do gigantesco sorriso, com os dentes branquíssimos fazendo contraste com o negro da pele, - mostra o "preto" em todo o seu esplendor. 

Mas há várias coisas incomuns neste rótulo. 

O "africano" tem bigode e está bem vestido, sentado como deve ser à mesa, bebendo o seu "Africano". 

Mesmo a posição tem alguma coisa de contido, de educado. Pega bem no copo e, mesmo que tenha bebido o que falta na garrafa, não mostra o seu álcool. 

É pura contradição. De facto, não se pode olhar muito para as imagens de publicidade porque se veem coisas demais. 

Deve ser do Africano...

EPHEMERA - Biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira, 21/2/2021

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Casa do Alentejo – Um Património de Memórias















Transcrevemos hoje um documento da autoria da nossa associada Rosa Honrado Calado, sobre a Casa do Alentejo de que é Directora. Embora longo, é um texto que vale a pena ser lido e guardado tal a riqueza do seu conteúdo

"Fala-se de Património da Casa do Alentejo e faz-se de imediato a interligação do palácio seiscentista com a Associação Regionalista. Isto porque a nossa Casa está instalada num edifício esplendoroso, um palácio seiscentista. Palácio que foi reconvertido, no princípio do século XX (1917-1919), num “club” luxuoso onde o jogo e o dinheiro dos ricos empresários criaram e guardaram ali uma vida dourada, completamente desfasada da realidade portuguesa, quando a guerra e a fome atingiam a maior parte da população.

Este palácio construído, primeiro como solar, no final de seiscentos, pertenceu aos viscondes de Alverca, foi arrendado (com exceção das lojas), em 1917, por um grupo de empresários que, após obras radicais assinadas pelo arquitecto Silva Júnior, fizeram do palácio um clube de recreio e de jogo denominado “Majestic Club”, passou pouco depois a chamar-se “Monumental Club” e assim permaneceu até 1928. O palácio encerrou durante algum tempo, até que em 1932 foi arrendado pelo Grémio Alentejano, colectividade que teve de mudar, nos anos quarenta, a designação para Casa do Alentejo. Em 1981, um descendente dos viscondes de Alverca vendeu o palácio à Associação Regionalista.

O visitante, transposta a rigidez da fachada, entra na Casa do Alentejo e tem uma agradável surpresa com a exuberância do seu interior. Subida a escadaria descobre o encantamento do belíssimo pátio árabe que lhe transmite uma frescura mourisca, ornado com varandas, galerias, fonte e tanque circular em mármore e a cúpula envidraçada fornece-lhe uma ambiência luminosa. O visitante encanta-se e quase esquece que aquele imóvel é a sede da Associação Regionalista do Alentejo.

É evidente que esta ambivalência tem aspectos muito positivos, mas acarreta a grande responsabilidade da manutenção, preservação e divulgação de tão rico património edificado.

Se por um lado, a nossa Associação Regionalista possui, entre as suas congéneres, a mais visitada e admirada sede, há que reconhecer também que tem sido graças ao empenho dos alentejanos que a cultura e o património do Alentejo deram vivência a um vetusto palácio da baixa pombalina. Tornaram-no um edifício público visitado por todos, nacionais e estrangeiros.

Património edificado revela-se aqui em perfeita harmonia com a cultura alentejana, insistentemente preservada e mostrada como património vivo.

Retorna-se ainda ao pátio árabe e conclui-se que ele é o centro, o cenário predilecto para os retratistas, espaço de convívio, de boas-vindas, de exposições. Recebe todos e é já um ex-libris. O seu pavimento foi restaurado em 1999. O visitante vai percorrer o interior das arcadas e é atraído pelo belíssimo toucador das senhoras em estilo “Luís XV” ou pela sala de sócios (sala Lourenço Bernardino), ambas decoradas com pinturas de José Bazalisa. Num plano mais elevado depara com o bengaleiro, que se mantem ainda como uma das marcas dos anos vinte, tendo passado já por algum estado de degradação, está, hoje, totalmente recuperado e iluminado. Ainda neste 1º piso aproveita para visitar o “Centro Interpretativo”, inaugurado recentemente, em 2018.

Antes de subir ao 2º piso, repara nas placas que preenchem uma parte das paredes e que foram ali colocadas, ao longo de décadas, para homenagearem e perpetuarem a memória dos alentejanos considerados como os mais ilustres, destaca-se a placa que assinala Jacinto Fernandes Palma como fundador da Casa do Alentejo.

Ao subir a escadaria, que lhe dará acesso ao 2º piso, continua a encontrar lambrins e azulejos hispano-árabes, contempla, agora, um patamar que foi habilmente iluminado por três grandes janelões com vitrais policromados. Neste inesperado espaço mostram-se peças de mobiliário com incrustações de madrepérola.

O visiteiro entrou no hall do 2º andar e surpreende-se com a mudança de estilo, encontra um ambiente mais intimista onde pinturas naturalistas são rematadas com medalhões de cabeças femininas. Recentemente, este hall recebeu um novo sistema de iluminação.

À esquerda, avistam-se os famosos salões. O maior, o grande salão dos espelhos, estilo Luís XVI com mobiliário a condizer, tecto e pinturas murais da autoria dos irmãos Benvindo Ceia, foi concebido para ser a grande sala de festas do “Magestic” e aí brilharam e rodopiaram as damas em datas festivas. Em 1948, os alentejanos denominaram-no como “Salão Victor Santos” para homenagearem o grande dirigente. Curiosamente este salão comunica com o principal salão de jogos através de um palco que se abre para ambos os lados. O salão de jogos, o coração do casino, foi decorado com pinturas alusivas, assinadas por Domingos Costa, natural de Campo Maior. No alto do tecto aparece suspensa “a fortuna” e os restantes painéis têm um estilo romântico neo-renascença. Para perpetuar a memória do professor Agostinho Fortes foi atribuído ao salão o seu nome.

A grandiosidade destes salões tem sido aproveitada pela nossa Colectividade. Considerados ainda como locais requintados são escolhidos para diversos eventos: festas, casamentos, baptizados, colóquios, conferências, homenagens, lançamentos de livros, espectáculos, filmagens…Aos sábados à tarde, no “Salão Agostinho Fortes” estão marcadas as tardes culturais com um programa variado onde predomina a festa do cante alentejano. A entrada é livre e oferecida a todos os visitantes – cortesia alentejana. Aos domingos, uma orquestra, colocada no palco, anima os dois salões e proporciona aos bailarinos os famosos e tradicionais “Bailes da Casa do Alentejo”.

Contíguo ao salão “Victor Santos” funcionou um bar, que possui um enorme painel a óleo, cujo tema é uma homenagem à luta dos trabalhadores alentejanos, obra das mais valiosas, da autoria do pintor alentejano Rogério Ribeiro.

Se caminhar noutra direcção vai deparar com a “Sala de Olivença”, zona que foi de leitura ou de espera. No presente, é a “Galeria”, onde os artistas expõem quadros e fotografias. Nesta sala há, agora, uma iluminação incidente nas obras expostas e outra que realça o friso de azulejos com ilustrações dos cantos dos Lusíadas, da autoria de Jorge Colaço. Desde há 13 anos, que esta sala ostenta orgulhosamente uma placa evocativa do 10º aniversário do Prémio Nobel Português, placa descerrada pelo próprio José Saramago que, nesse dia 10 de Dezembro de 2008, revelou, emocionado, ter uma parte da sua vida ligada à Casa do Alentejo.

Podemos afirmar que a placa de homenagem a José Saramago, tal como o painel de Rogério Ribeiro, são duas inestimáveis peças do património alentejano.

Se o visitante quiser degustar alguns pratos típicos da gastronomia alentejana pode optar entre duas salas, ambas bonitas, tranquilas e diferentes. Numa encontra as paredes cobertas com painéis que representam o meio rural português com fainas, romarias e festas religiosas, decoração azulejar de Jorge Colaço. Este espaço foi, nos idos do “Magestic”, sala de bridge e de outros jogos de vasa. A outra sala decorada com azulejos da 1ªmetade do século XVII, representam cenas palacianas e campestres, é um dos raros espaços que ainda mantem a decoração do palácio secular.

Neste piso continua a admirar a arte de Jorge Colaço e contempla a obra onde o artista figurou, em grandes painéis de azulejo, caçadas reais e uma cena medieval de perseguição de touros a rojão. Neste ambiente neo - gótico funcionava a sala de bilhar. Hoje, o visitante entra na sala, que os alentejanos denominaram como “Biblioteca Victor Paquete”, e é informado que aí se guarda o acervo bibliográfico com cerca de 10 mil exemplares, que pode usufruir de uma biblioteca especializada em temas alentejanos, ler escritores e poetas do Alentejo ou consultar as publicações da Casa do Alentejo – a nossa Revista, cujo 1º número trazia o nome” Boletim do Grémio Alentejano” e data de 1935 ou ler jornais, revistas, boletins, recebidos dos diversos municípios alentejanos. Poderá ainda fazer coincidir a sua visita com uma data que lhe permita assistir ou participar numa das tertúlias que aqui têm vindo a acontecer.

De regresso ao 1º piso, ainda espreitou as renovadas e modernas instalações sanitárias que, finalmente, servem também senhoras; como marcas dum tempo (princípio do Século XX) ficaram o lavatório com toucador para as senhoras e os mictórios.

A visita ainda não está concluída, porque ouviu falar de uns antigos “privados” e tem curiosidade em conhecê-los. Tem razão. Estes espaços ostentam características preciosas. Foram efectivamente salas privadas de jogo, concebidas para criar um ambiente de luxo e conforto, ostentam uma original decoração com estilos revivalistas império, arte nova, arabizante e têm um mobiliário em perfeita sintonia. Há décadas que estes privados são usados como gabinetes de trabalho e de reunião pelos elementos da direcção e dos órgãos sociais, foram recuperados há mais de uma década e guardam também as principais obras de arte oferecidas à nossa Casa. Dependurados estão quadros de Dórdio Gomes, Benvindo Ceia, Maria Toscano Rico, Manuel Ribeiro de Pavia, Rogério Ribeiro, Guy Ferreira, António Galvão, Pantoja Rojão e de tantos outros, fotografias consideradas como originais únicos, diplomas atribuídos à Colectividade e expostas peças de artesanato de grande valor estimativo. O nosso convidado está verdadeiramente compensado, “reviveu” o ambiente dos pequenos privados, mas ficou muito orgulhoso por ver preservado todo o património que os alentejanos têm doado à sua Casa do Alentejo.

Caros sócios e amigos da Casa do Alentejo, oxalá tenham apreciado a visita guiada.

Estamos em crer que ficaram encantados e motivados para planearem ao vivo uma boa confraternização, um espectáculo, um convívio, o sabor dum bom petisco, enfim... o que mais vos aprouver.

O maldito vírus vai render-se!

 Até breve... Saudações associativas e alentejanas.

A Direcção

Rosa Honrado Calado"

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Pérolas do ensino primário do fascismo


Reprodução do essencial da crónica "Medidas coercivas" publicada no "Público" de 2/2/2021:

(…) raios partam o antigo ensino primário e os resquícios irremovíveis que me tingem a mona desde que eu lá os enfiei para passar o exame da 4ª classe.

É uma lixeira a céu aberto, entrecortada por nomes de linhas ferroviárias e afluentes, sistemas orográficos, cidades tropicais que já há muito rejeitaram os nomes embaraçosos que lhes demos, peculiaridades ornitológicas, ditongos, trajos regionais e tragédias passadas com lobos.

Gosto de passear lá com outros sobreviventes, comparando ignorâncias e teimosias. Um dos setores mais acidentados é o das medidas que tentaram incutir-nos numa fútil tentativa de resistirmos ao sistema decimal.

Dessa lavagem cerebral só me restou uma surpresa: o quarteirão de sardinhas, que são vinte e cinco, já um quartilho são um quarto de 25, que dá meia dúzia mais uma sardinha a dividir por quatro.

Um almude de vinho são 30 litros (…). Meio almude, para os tête à tête mais confinados, são 15 litros. E um cântaro quantos decilitros tem? E um escrópulo? E um arrátel de milho-painço, quantas braças dá? Em querendo comprar uma canada de centeio, quantas arrobas sobram para pôr a mondar na eira brava?

Indo para a feira com duas pisgóias de tremoço seco e um xágara de água do poço, em querendo trocá-los por fangas de pevides, quantas posso pedir sem correr o risco de ser apedrejado?

Com uma toesa de salmoura e um salamim de bacalhau desfiado, quantas pulgadas galegas tenho de percorrer para assolhar os rebites de mordaça do boi?

Mentiria se dissesse que já soube as respostas a estas perguntas. Mas já soube.

Miguel Esteves Cardoso