* Nota: este texto não pretende ser uma resenha ou algo do tipo. Apenas alguns de meus desajustados pitacos e devaneios.
Lembro-me que em algum ano do ensino médio, a professora
de redação pediu que escrevêssemos um texto. Não me lembro do que se tratava,
mas terminava mais ou menos assim: “(...) e ali ficaram. Feito folhas secas no
chão. Como os retirantes no quadro de Portinari”.
Havia, além da referência direta à pintura, uma outra,
sub-reptícia, mas também não muito difícil de identificar. A secura que eu
tentava evidenciar através da imagem das folhas, era a secura de “Vidas Secas”
de Graciliano Ramos. Por aqueles tempos eu teria lido pela primeira vez a obra.
Acredito que não tinha dela mesma compreensão (para pior ou para melhor) que
tenho hoje... Posso dizer, contudo, que me indignava a situação daquelas
figuras que se emergiam nas páginas, esquálidas, que mal falavam, que grunhiam,
como chega a dizer o autor. Ao mesmo tempo as palavras do livro também ásperas
me exerciam algum fascínio.
Não eram letras descompassadas, se integravam
àquelas imagens de vidas duras no semiárido e a expressão que encontrava era
naquela tal pintura do Portinari, mesmo que não tivesse ela propriamente alguma
relação direta, mesmo tendo muito mais gente na família de retirantes do pintor
e não ter nenhuma cadelinha.
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Já na faculdade, resolvi certa vez fazer uma disciplina
no curso de Letras. Modernismo Brasileiro. Foi uma experiência bacana. Quando
fomos estudar a segunda geração modernista eis que me deparo com Vidas Secas de
novo. Pude fazer uma leitura mais atenta dessa vez. Comprovei a genialidade de
Ramos. Pude ver coisa que não via antes. Era realmente uma obra bonita e que
tinha uma atenção com muito debate da época que foi escrita. Rebatia para bem
longe a ideia de determinismo geográfico para formação física humana. Naquele
momento, década de 1940, para não falar da expressão máxima da crueldade com o
genocídio nazifascista, também tínhamos por nossas bandas, os integralistas e
outros grupos com a ideia de eugenia, de clareamento de raça, de que o meio
determina o homem e essas coisas perigosas que servem para todo tipo de
preconceito e racismo. Ramos, vai por caminho diferente, e em Vidas Secas não nega que a forma física de seus
personagens tenha alguma relação com o clima do sertão nordestino, mas atenta que nem
todos são assim. O fazendeiro para qual Fabiano, o pai da família que se retira,
vem a trabalhar, não se parece assim. Nem os policiais que vem a
prender Fabiano. Comunista, militante que era, tendo sido preso inclusive,
Graciliano Ramos, sabia que as formas esquálidas e miseráveis, tinham a
ver mais com a desigualdade, com a exploração e com o
abuso de poder. Questionando o determinismo do meio e evidenciando as profundas
contradições sociais, desmistifica-se ideia de qualquer superioridade
genética. Se algo determina a condição social das pessoas parece ser sua classe, a hierarquia e o histórico de opressões que se fundem ao racismo, ao
preconceito e à exploração do outro.
O patrão de
Fabiano, poderia comer bem, às custas da exploração de seu trabalho.
Pagando-lhe menos, em regime de servidão, como vem a perceber sua esposa, Sinhá
Vitória. Mas que poder tem Fabiano, naquela condição, de reivindicar seus
direitos? Aliás, tentando expandir o questionamento, havia direitos numa
sociedade de privilégios (para poucos)? (A pergunta permanece atual...).
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Há ainda a versão cinematográfica
da obra dirigida por Nelson Pereira dos Santos, de 1963. Bela fotografia em
preto e branco e, mesmo que não seja novidade o que digo, vale dizer que há
muito brilhantismo na adaptação para a tela. A primeira sequência filmando de
modo quase estático uma paisagem do sertão nordestino só ganha um primeiro
movimento com a personagem da cachorra Baleia a frente de seus donos. É relevante esse momento. Baleia, tanto no livro, como no filme, tem notável
importância. Seu próprio nome já singulariza, e nos atira a ironia que contrista, de uma cachorra magricela naquela secura toda ter nome do maior mamífero marinho.
Baleia, contudo, não é só isso, pois é no animal, também ironicamente, que reside humanidade em sentido elevado. Compartilha a presa da caçada,
mesmo faminta, com os donos e se contenta com míseros ossinhos (isso não
aparece no filme). Ela que dá algum carinho ao menino mais velho, quando apanha
da mãe, por perguntar “o que é o inferno?”.
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Os donos mal falam e no mais das vezes grunhem e o papagaio, que pela fome dos donos acaba morrendo para servir como alimento, mal sabe falar por conta disso. Os filhos do casal sequer tinham nome. No filme em nenhum momento são chamados pela alcunha. No livro,
são chamados de “menino mais velho” e “menino mais novo”.
Numa das cenas, na primeira metade do filme, a confusão
que vivem os personagens é evidenciada ao falarem de Seu Tomás da Bolandeira,
homem próximo a eles, que ninguém sabia pra onde havia ido, mas que sabia ler e
tinha uma cama de couro. Ter uma cama de couro é o grande sonho de Sinhá
Vitória. As falas se Fabiano e de Sinhá Vitória se sobrepõem uma a outra, sem
comporem um diálogo, saem de forma desordenada e caótica, como se não se
preocupassem com algum entendimento.
Nelson Pereira dos Santos, concebeu uma linearidade para
tratar da história, que não ocorre no livro. Neste, há idas e vindas, e há a
concepção de que com exceção do primeiro capítulo “Mudança” e do último “Fuga”
podem ser lidos em outras ordens pelo leitor. Contudo, o início e o fim,
reforçam a ideia cíclica, de que os revezes sempre retornam que podem ser
atingidos pelas dificuldades da seca, pela miséria, pelo patrão, ou por quem detém
algum poder (policiais, fiscais de impostos, por exemplo). Leitor, que também
era, Santos fez sua leitura do livro para a película.
No filme o ciclo abre e se fecha com um som semelhante a
um berrante, nas imagens estáticas, que só há o movimento da família chegando,
no início, e indo, no fim. Sem saber para onde de certo. Não há menção
específica sobre quais eram os locais. Sabe-se que estão no sertão nordestino e
que vão para o sul. O sertão poderia ser qualquer lugar? Quais as ilusões,
miragens e fantasias dessa fuga para o sul? Se Portinari já pintava, Belchior
cantava em sua Fotografia 3x4:
“Eu me lembro muito bem do dia em que eu
cheguei
Jovem que desce do norte pra cidade grande
Os pés cansados e feridos de andar legua tirana...nana”
(Minha associação nem foi muito original. rs. Ao procurar um vídeo da música achei esta montagem abaixo)
Do “mundo coberto de penas” (capítulo do livro) de Fabiano,
parece haver muitos penares, sonhos que são folhas secas no chão. Deve ser daí,
em referências desorganizadas, no meu inconsciente juvenil, que também surgiu
essa imagem. Talvez esta noite vendo o filme tenha reavivado um pouco disso...
Proustianamente, feito à semelhança do poder ativador de madalena com chá...
Em meio a pequenez de minhas lembranças, Graciliano Ramos e Nelson Pereira dos Santos, lembram que há muito mais fora de minha cabeça. E, se no sertão, que ao contrário do que dizia (ou dizem do) Guimarães Rosa, não é o mundo, é ali em Vidas Secas, não um pouco, mas um muito do Brasil... em suas desigualdades, desencantos e esperança de nossa gente. O encerramento de livro e filme, assim como ambos em totalidade, sintetizam transcendência que poderia ser mera denúncia. Por tal motivo que Santos, ciente disso, não deixou de inscrever em letras brancas antes de fechar o filme as palavras de Ramos, que poetizavam toda aquela saga, que não era só daquela família, mas de outros tantos...
"Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos.” (p. 128)